quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PAIXÃO

o namorado
De repente, o amor entrou na sua vida. Ninguém soube quando, onde e como Verita começou a gostar. O fato é que, um dia, os vizinhos cochicharam:
— Verita tem namorado.
— E que tal?
— Mais ou menos.
Esse "mais ou menos" não definia o rapagão que era Alcides. Criado em praia, com um busto moreno de havaiano, formava um contraste impressionante com Verita. Quando passavam, os dois, de braço, pela calçada ou quando conversavam no portão, os transeuntes se voltavam para admirá-los. Diante dele, solidamente belo como um bárbaro, ela se fazia menor, duma feminilidade ainda mais delicada e mais intensa. Foi, com certeza, este contraste escandaloso, quase patético, que os aproximou e uniu. À primeira vista, Alcides se impressionara com a graça doentia da menina, as olheiras fundas, os pulsos finos e diáfanos, as mãos ardentes e macias. Qualquer esforço a cansava e parecia desfalecer num susto, numa emoção mais forte. Quando ele a beijou nos lábios, pela primeira vez (e foi um beijo rápido), Verita ficou sem uma gota de sangue no rosto e com palpitações angustiosas, falta de ar. Mas, de qualquer maneira, o namoro mereceu, desde logo, a aprovação da família. Diziam de Alcides que era um rapaz direito, de ótima família baiana. Na verdade, só uma coisa assustava no amor de Verita. A mãe e as tias, entre si, discutiam a hipótese, ainda remota, mas assustadora: a maternidade da moça. Embora o namoro tivesse em começo, havia quem sugerisse:
— É preciso avisar a Alcides que nada de filhos. É bom que ele saiba, já!
Realmente, um parto, mesmo normal, seria uma prova medonha para a natureza frágil, quase infantil, de Verita.
o velório
O amor tornou a pequena ainda mais delicada, mais leve. E o drama do fastio fez-se mais agudo. A menina não variava:
— Não tenho fome! Não quero comer!
De fato, quem é muito feliz não tem vontade nenhuma de comer. E Verita o era. Apaixonara-se por esse rapaz tostado como um havaiano, deslumbrava-se com sua vitalidade e não se cansava de revê-lo, todas as tardes, sempre forte e viril. Os diálogos entre eles eram de uma desesperadora trivialidade:
— Tu gostas de mim?
— Sou louco por ti!
— Mentira!
— Te juro!
Mas um dia... Bateu o telefone e a própria Verita foi atender. Era Alcides.
Avisou:
— Meu anjinho, hoje não posso te ver.
— Por quê?
E ele:
— Imagina só que abacaxi. Tenho que fazer quarto. Que caso sério!
No dia seguinte, explicou: era uma prima, não sei em que grau, que morrera, de repente, de edema pulmonar. Passara a noite, de fio a pavio, velando a defunta; num fundo suspiro, repetiu a expressão "abacaxi". Ela, muito sensível à idéia de morte, pediu detalhes, num misto de repulsa e fascinação por esse velório a que não assistira. E teve uma curiosidade inesperada. Perguntou se a morta estava bonita ou feia. Ele deu a opinião convicta:
— Bonita!
Nesse dia, pouco antes de se despedir, Alcides fez uma pergunta, que a assombrou:
— Você tem medo de morrer?
— Idéia!
Ele ainda brincou:
— Tem medo, sim! Eu sei que tem! Tão criança!
Verita, num arrepio, perguntou:
— Natural! E não é natural?
a falsa morte 
Então, nos dias que se seguiram, ele não teve outro assunto. E fazia reflexões assim:
— Parece incrível que todos nós tenhamos de morrer, um dia. De amargar, hein?
A princípio, a pequena quis protestar:
— Cruz, credo!
Mas, pouco a pouco, também Verita foi contagiada; achava nessas conversas não sei que fascinação, que encanto triste, mas irresistível. Mais tarde, fazia sugestões, a que ela se submetia, com impressionante docilidade. Por exemplo: ele queria que ela não se pintasse mais. E dizia: lugares, repetindo a cena do velório simulado. Por último, quis tornar mais intenso o realismo; colocava a moça entre quatro velas acesas. Era, porém, incapaz de uma liberdade maior de namorado; limitava-se a uma contemplação castíssima. Às vezes, exclamava, na sua paixão contida:
— Um dia hás de morrer!
De fato "um dia" ela amanheceu com uma tossezinha. E tudo aconteceu num ritmo implacável. A tosse foi-se tornando mais freqüente e exasperante. Estiolavase a olhos vistos. Pediu, então, já com a laringe tomada, numa voz que quase não se escutava:
— Não deixem este homem entrar no meu quarto!
Com a lucidez dos doentes do peito, na fase final da moléstia, Verita compreendeu tudo. Ele a respeitara, ele a tratara como uma irmã, porque ela estava viva. E esperava a morte, esperava que ela morresse. Meio delirante, chamou a mãe, engrolou as palavras. Disse, em suma, o que ninguém entendeu, isto é, que nenhum cemitério servia para ela; pediu que a enterrasse num cemitério desconhecido, num túmulo que ele não pudesse achar. Delirava, então, e só com túmulos violados, com terra remexida, com velórios feéricos, deslumbrantes.
a fuga
Até que um dia aconteceu o impossível. A tia, que estava no quarto, fazendo companhia à moribunda, cochilou uns dez minutos. Quando acordou, deu um grito medonho. Verita desaparecera. Procuraram a casa inteira; depois, na rua; e, afinal, chamaram a polícia. A agonizante não aparecia em lugar nenhum. Dir-se-ia um rapto fantástico. Ninguém sabia, nem podia imaginar que ela estava fugindo de um homem diferente, que só amava as mulheres mortas. Três dias depois, a vizinhança começou a se queixar de um cheiro intolerável. Procura daqui, dali, até que se lembraram de investigar no porão. Lá estava a menina, morta, naturalmente. Arrastarasse, sem que a tia, adormecida, percebesse, e se finara ali certa de que o namorado a procuraria em todos os túmulos, menos naquele.

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