domingo, 12 de fevereiro de 2017

UMA SENHORA HONESTA

Era muito virtuosa e, mais do que isso, tinha orgulho, tinha vaidade dessa virtude. Casada há seis meses com Valverde (Márcio Valverde), ouvia muita novela de rádio. E se, por coincidência, a heroína da novela prevaricava, ela não podia conter sua indignação. Dizia logo:
— Esse negócio de trair o marido não é comigo!
Fazia uma pausa rancorosa. E concluía:
— Acho muito feio!
Vigiava as colegas, as vizinhas, sobretudo as casadas. Quando surpreendia um olhar suspeito, um sorriso duvidoso, vinha para casa em brasas. Perdia a compostura:
— Fulana devia ter mais vergonha naquela cara! Então, isso é papel? Uma mulher casada, com filhos! E até me admira!
Durante horas, não falava noutra coisa. Na sua irritação, acabava implicando com o marido. Valverde, metido num pijama listrado, tremia diante dessa virtude agressiva e esbravejante. Refugiava-se detrás da última edição, como se fosse uma barricada; ciciava:
— Fala baixo, Luci! Fala baixo!
— Fala baixo, por quê? Ora essa é muito boa! Afinal, estou ou não estou na minha casa?
— A vizinhança pode ouvir.
— Bolas pra você! Bolas pra vizinhança!
Valverde sofria de asma. Bastava o tempo esfriar um pouquinho; a umidade era um veneno para ele. E, então, passava mal, tudo quanto era brônquio chiando e o acometia o pavor da asfixia iminente. Sendo tímido, talvez a timidez decorresse de sua condição melancólica de asmático. Mirrado, com um peito de criança, uns bracinhos finos e longos de Olívia Palito — o pobre-diabo não tinha a base física da coragem.
Por vezes, nas suas meditações, imaginava a hipótese de uma luta corporal entre ele e a esposa. Embora mulher, Luci era bem mais alentada. E não há dúvida de que levaria vantagem esmagadora. A superioridade da moça, porém, não era apenas física. Não.
O que a tornava intolerável e agressiva era justamente a virtude que a encouraçava.
Como se sentia uma esposa corretíssima, acima de qualquer suspeita, vivia esfregando na cara do marido essa fidelidade. Não passava um santo dia que não alegasse:
— Mulher igual a mim, pode haver! Mais séria, não! E duvido!
— Eu disse o contrário, disse?
— Não disse, mas insinuou!
— Oh,Luci!
Ela espetava o dedo no peito magro do marido; e explodia:
— Os homens são muito burros! Não sabem dar valor a uma mulher honesta.
Só te digo uma coisa: devias dar graças a Deus de teres uma esposa como eu! Não há dúvida: ela o tratava mal, muito mal mesmo; desacatava-o, inclusive na frente de visitas. Justificava-se, porém:
— Não sou de muito chamego, de muito agarramento, mesmo porque tudo isso é bobagem. Mas nunca te traí? Compreendeste?

o trote
Era funcionária pública, já que o marido ganhava pouco. Ia para a repartição cedinho. Para evitar equívocos, amarrava a cara. Andar de cara amarrada era uma de suas normas de mulher séria. Fosse por essa ferocidade fisionômica ou por outro motivo qualquer, não tinha maiores aborrecimentos na rua. E não que fosse feia.
Podia não ser bonita, mas era cheia de corpo. E há, indubitavelmente há, conquistadores que se especializam em senhoras robustas. Por outro lado, enfurecia-se contra um simples olhar. Certa vez, no ônibus, um senhor, de meia-idade, que ia no banco da frente, virou-se, umas duas ou três vezes, durante os quarenta minutos da viagem.
Luci perguntou, então, bem alto, para que todos ouvissem:
— Nunca me viu, não?
O cavalheiro, com as orelhas em fogo, só faltou se afundar no banco. Uns rapazolas, sem compostura, riram. E quando Luci chegou na repartição esbravejava:
— A gente encontra cada sem-vergonha que só dando com a bolsa na cara!
Não saberia viver sem essa honestidade profunda. Um dia a vizinha veio bater na porta:
— D. Luci! D. Luci!
Apareceu, de quimono. Era o telefone. Admirou-se:
— Pra mim?
Veio atender assim mesmo. Era uma voz de homem, disse mais ou menos o
seguinte:
— Aqui fala um seu admirador.
Antes da indignação, houve o pasmo:
— Como?
— Tenho pela senhora uma grande simpatia.
Era demais! Apesar de estar na casa dos outros ou por isso mesmo, fez tremendo escândalo:
— Olha seu cachorro, seu sem-vergonha! Eu não sou, ouviu?, quem você está pensando! E fique sabendo que meu marido é bastante homem para lhe partir a cara!
O anônimo, do outro lado, não perdeu a calma. Eliminou o tratamento de senhora e declarou simplesmente o seguinte, fazendo uso de expressões, as mais desagradáveis e chulas:
— Tu deixa de ser besta, porque tudo isso é conversa fiada, etc, etc, etc.

o explorador
A família do vizinho, maravilhada, regalava-se com tamanha virtude. Luci voltou para casa transpirando, mas na euforia de sua fidelidade. Nunca, como durante o telefonema, sentira tão inequivocamente a sua condição de senhora honesta.
De noite, quando o marido chegou contou-lhe tudo. Valverde estava constipado e, pois, no pânico da asma. Ouviu, sem um comentário. Luci soltou a bomba, afinal:
— Desconfio de um cara.
— Quem?
Primeiro, vou apurar direitinho. Mas se for quem suponho, vou te pedir um favor.
—Qual?
E ela:
— Você vai me dar um tiro nesse camarada!
— Eu? Logo eu?! Tem dó!
— Porque se você não der o tiro, te garanto que eu dou!
Sim, ela desconfiava de alguém. Há seis meses que, ao sair de manhã e ao voltar de tarde, um vizinho vinha para a janela assistir à sua partida e à sua chegada.
Ora, desde que se capacitara da própria honestidade, um simples olhar bastava para a conspurcar. Ela própria sustentava a teoria de que nada é tão imoral no homem quanto o olhar. E o vizinho em apreço, sem dizer uma palavra, sem esboçar um sorriso, dardejava sobre ela os olhares mais atentatórios. A coisa era de tal forma tenaz, obstinada e impudica que Luci acabou pedindo informações sobre o camarada.
Soube de coisas incríveis, inclusive uma que a arrepiou: embora moço (teria seus trinta e poucos anos) vivia às custas de uma velha rica. Sofria desfeitas, humilhações da megera que chorava cada tostão. Mas o rapaz, com um estoicismo e um descaro impressionantes, suportava tudo, para não morrer de fome. E Luci, apesar de achar feio, horrível, esse negócio de homem sustentado por mulher, teve uma pena relativa das desconsiderações infligidas ao sem-vergonha. Reagiu, porém, contra essa debilidade sentimental, porque enfim o rapaz estava nutrindo a seu respeito intenções desonestas, embora não expressas. Posteriormente, soube do nome do conquistador: Adriano. Era, como se vê, nome de vinho e, ao mesmo tempo, nome de fogos de São João. À noite, antes de dormir, e já na espessa camisola, fazia comentários enigmáticos, cujo sentido Valverde não captava:
— Hoje em dia os homens não respeitam nem mulher casada!
Dizia isso diante do espelho, repassando no rosto um remédio para espinha, que lhe tinham recomendado. O marido, quieto e esquálido na cama, no pavor permanente da asma, olhava de esguelha para a mulher. E calado fazia suas reflexões.
Tinha um amigo que era traído da maneira mais miserável. Apesar disso ou por isso mesmo a mulher o tratava como a um príncipe. E sempre que voltava de uma entrevista com o outro, trazia para o esposo uma lembrancinha. Valverde quase invejava o colega. Ainda diante do espelho, Luci prosseguia, indireta e sutil:
— Mas comigo estão muito enganados! Eu não sou dessas!
Calava-se, porque, evidentemente, não podia pôr o marido a par de suas atribulações.
No dia seguinte, ao passar, a caminho do ponto de ônibus, lá estava o conquistador de velhas. Foi ilusão de Luci ou ele entreabrira para ela um meio- sorriso sintomático. Ficou indignada, disse, entredentes:
— Que desaforo!
No ônibus, viajou preocupadíssima. Era óbvio que o miserável já não se limitava a uma admiração distante, quase respeitosa. Não. Apertava o cerco. Durante todo o dia, no trabalho, ela se sentiu acuada. O pior foi na volta, à tarde: o Fulano estava, na calçada, numa camisa esporte, verde-claro, de mangas curtas. Pela primeira vez, Luci constatou que tinha braços fortes e bonitos, o que não era de admirar, dado que, aos domingos, o cínico jogava voleibol de praia. Esta exibição deslavada de braços tornava mais patentes do que nunca as intenções de conquista.
E só faltava, agora, uma coisa: que o rapaz lhe dirigisse a palavra. Se fizesse isso, Luci seria bastante mulher para lhe quebrar o guarda-chuva na cara. Finalmente, a moça apanhou uma gripe e resolveu ficar em casa.

orquídeas
O marido saiu, muito alegre, dizendo que ia jogar no bicho; sonhara com não sei que animal e planejava o jogo. Muito imaginativa, ela ficou cultivando as piores hipóteses, sobretudo uma particularmente eletrizante: de que o vizinho, aproveitando a ausência de Valverde, invadisse a casa. Podia ter passado a tranca na porta, mas não ousou. Às quatro horas da tarde, explodiu o inconcebível: um mensageiro veio trazer uma caixa de orquídeas. Nenhuma indicação de remetente. Luci tremeu. Pela primeira vez, em sua vida, compreendia toda a patética fragilidade do sexo feminino, todo o imenso desamparo da mulher. Diria ao marido? Não, nunca! Valverde, apesar da asma, do peito de menino, podia dar um tiro no Casanova. Por outro lado, já admitia que o vizinho nutrisse por ela mais que um simples entusiasmo material 
Quem sabe se não seria um amor? Grande, invencível, fatal? De noite, chegou Valverde, eufórico. Ao vê-lo, Luci teve um choque como se o visse pela primeira vez: que figurinha lamentável! E não pôde deixar de estabelecer o contraste entre os bracinhos do marido e os do "outro". Valverde quis beijá-la; ela fugiu com o rosto, azeda:
— Sossega!
O pobre esfregou as mãos:
— Ganhei no bicho!
Ela, nem confiança. Ligou o rádio; mas o seu pensamento estava cheio de orquídeas. De repente. Valverde, que fora lá dentro, reapareceu de calça de pijama e a camisa rubro-negra, sem mangas, que usava na intimidade. Fez, então, a pergunta:
— Recebeste as flores?
— Que flores?
— Que eu mandei?
Empalideceu:
— Ah, foi você?
E ele:
— Claro! Ganhei no bicho e já sabe!
A alma de Luci caiu-lhe aos pés, rolou no chão. Fora de si, não queria se convencer:
— Foi então você? Mas não é possível, não acredito! Onde já se viu marido mandar flores!
Ele com os bracinhos de fora, os bracinhos de Olívia Palito, insistia que fora ele, sim, e explicou o anonimato das flores como uma piada. Quando Luci se convenceu por fim, deixou-se tomar de fúria. Cresceu para o marido, já acovardado, e o descompôs:
— Seu idiota! Seu cretino! Espirro de gente!
Acabou numa tremenda crise de pranto. Sem compreender, ele pensou na esposa do colega, que era infiel e, ao mesmo tempo, tão cordial com o marido!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PAIXÃO

o namorado
De repente, o amor entrou na sua vida. Ninguém soube quando, onde e como Verita começou a gostar. O fato é que, um dia, os vizinhos cochicharam:
— Verita tem namorado.
— E que tal?
— Mais ou menos.
Esse "mais ou menos" não definia o rapagão que era Alcides. Criado em praia, com um busto moreno de havaiano, formava um contraste impressionante com Verita. Quando passavam, os dois, de braço, pela calçada ou quando conversavam no portão, os transeuntes se voltavam para admirá-los. Diante dele, solidamente belo como um bárbaro, ela se fazia menor, duma feminilidade ainda mais delicada e mais intensa. Foi, com certeza, este contraste escandaloso, quase patético, que os aproximou e uniu. À primeira vista, Alcides se impressionara com a graça doentia da menina, as olheiras fundas, os pulsos finos e diáfanos, as mãos ardentes e macias. Qualquer esforço a cansava e parecia desfalecer num susto, numa emoção mais forte. Quando ele a beijou nos lábios, pela primeira vez (e foi um beijo rápido), Verita ficou sem uma gota de sangue no rosto e com palpitações angustiosas, falta de ar. Mas, de qualquer maneira, o namoro mereceu, desde logo, a aprovação da família. Diziam de Alcides que era um rapaz direito, de ótima família baiana. Na verdade, só uma coisa assustava no amor de Verita. A mãe e as tias, entre si, discutiam a hipótese, ainda remota, mas assustadora: a maternidade da moça. Embora o namoro tivesse em começo, havia quem sugerisse:
— É preciso avisar a Alcides que nada de filhos. É bom que ele saiba, já!
Realmente, um parto, mesmo normal, seria uma prova medonha para a natureza frágil, quase infantil, de Verita.
o velório
O amor tornou a pequena ainda mais delicada, mais leve. E o drama do fastio fez-se mais agudo. A menina não variava:
— Não tenho fome! Não quero comer!
De fato, quem é muito feliz não tem vontade nenhuma de comer. E Verita o era. Apaixonara-se por esse rapaz tostado como um havaiano, deslumbrava-se com sua vitalidade e não se cansava de revê-lo, todas as tardes, sempre forte e viril. Os diálogos entre eles eram de uma desesperadora trivialidade:
— Tu gostas de mim?
— Sou louco por ti!
— Mentira!
— Te juro!
Mas um dia... Bateu o telefone e a própria Verita foi atender. Era Alcides.
Avisou:
— Meu anjinho, hoje não posso te ver.
— Por quê?
E ele:
— Imagina só que abacaxi. Tenho que fazer quarto. Que caso sério!
No dia seguinte, explicou: era uma prima, não sei em que grau, que morrera, de repente, de edema pulmonar. Passara a noite, de fio a pavio, velando a defunta; num fundo suspiro, repetiu a expressão "abacaxi". Ela, muito sensível à idéia de morte, pediu detalhes, num misto de repulsa e fascinação por esse velório a que não assistira. E teve uma curiosidade inesperada. Perguntou se a morta estava bonita ou feia. Ele deu a opinião convicta:
— Bonita!
Nesse dia, pouco antes de se despedir, Alcides fez uma pergunta, que a assombrou:
— Você tem medo de morrer?
— Idéia!
Ele ainda brincou:
— Tem medo, sim! Eu sei que tem! Tão criança!
Verita, num arrepio, perguntou:
— Natural! E não é natural?
a falsa morte 
Então, nos dias que se seguiram, ele não teve outro assunto. E fazia reflexões assim:
— Parece incrível que todos nós tenhamos de morrer, um dia. De amargar, hein?
A princípio, a pequena quis protestar:
— Cruz, credo!
Mas, pouco a pouco, também Verita foi contagiada; achava nessas conversas não sei que fascinação, que encanto triste, mas irresistível. Mais tarde, fazia sugestões, a que ela se submetia, com impressionante docilidade. Por exemplo: ele queria que ela não se pintasse mais. E dizia: lugares, repetindo a cena do velório simulado. Por último, quis tornar mais intenso o realismo; colocava a moça entre quatro velas acesas. Era, porém, incapaz de uma liberdade maior de namorado; limitava-se a uma contemplação castíssima. Às vezes, exclamava, na sua paixão contida:
— Um dia hás de morrer!
De fato "um dia" ela amanheceu com uma tossezinha. E tudo aconteceu num ritmo implacável. A tosse foi-se tornando mais freqüente e exasperante. Estiolavase a olhos vistos. Pediu, então, já com a laringe tomada, numa voz que quase não se escutava:
— Não deixem este homem entrar no meu quarto!
Com a lucidez dos doentes do peito, na fase final da moléstia, Verita compreendeu tudo. Ele a respeitara, ele a tratara como uma irmã, porque ela estava viva. E esperava a morte, esperava que ela morresse. Meio delirante, chamou a mãe, engrolou as palavras. Disse, em suma, o que ninguém entendeu, isto é, que nenhum cemitério servia para ela; pediu que a enterrasse num cemitério desconhecido, num túmulo que ele não pudesse achar. Delirava, então, e só com túmulos violados, com terra remexida, com velórios feéricos, deslumbrantes.
a fuga
Até que um dia aconteceu o impossível. A tia, que estava no quarto, fazendo companhia à moribunda, cochilou uns dez minutos. Quando acordou, deu um grito medonho. Verita desaparecera. Procuraram a casa inteira; depois, na rua; e, afinal, chamaram a polícia. A agonizante não aparecia em lugar nenhum. Dir-se-ia um rapto fantástico. Ninguém sabia, nem podia imaginar que ela estava fugindo de um homem diferente, que só amava as mulheres mortas. Três dias depois, a vizinhança começou a se queixar de um cheiro intolerável. Procura daqui, dali, até que se lembraram de investigar no porão. Lá estava a menina, morta, naturalmente. Arrastarasse, sem que a tia, adormecida, percebesse, e se finara ali certa de que o namorado a procuraria em todos os túmulos, menos naquele.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SACRILÉGIO


No fim de 15 dias de namoroele veio com a idéia:
— Sabe de uma coisa? Preciso te apresentar à mamãe.
— Quando?
Ele pensou um pouco:
— Que tal amanhã?
— Ótimo!
Combinaram, então de pedra e cal, que seria no dia seguinte, de qualquer
maneira. Desde que se conheciam e se namoravam que Márcio quase só falava na santa senhora. Era mamãe pra cá, mamãe pra lá. E afirmava mesmo, num desafio a qualquer outra opinião em contrário:
— A melhor mãe do mundo é a minha. Só vendo!
E de tanto ouvir falar na futura sogra, Osvaldina fazia a reflexão meio irritada:
"Ora, bolas! Pensa que só a mãe dele presta e as outras não!" Fosse como fosse, preparou-se para conhecer uma senhora tão exaltada nas suas virtudes esplêndidas.
Antes, Mário, atarantado, fez-lhe mil e uma advertências: "Batom, não, meu anjo!
Mamãe não gosta de pintura." E, já a caminho, ele teve outra lembrança: "Nada de gíria, porque mamãe não tolera gíria." Enfim, conheceram-se, a nora e a sogra. O filho precipitava-se, a todo momento:
— Não senta aí, não, mamãe. Faz golpe de ar!

as duas
Inicialmente, a velha, sem dizer uma palavra, e sem nenhuma cordialidade aparente, imobilizou a pequena com um desses olhares implacáveis, que parecem despir a pessoa, virá-la pelo avesso. Em seguida, em tom seco e inapelável de ordem, disse:
— Sente-se.
E, com o rosto impassível, inescrutável, foi fazendo perguntas sobre perguntas.
Antes de mais nada, quis saber se Osvaldina era religiosa. A menina, presa de uma inibição mortal, admitiu:
— Acredito em Deus, mas não sou carola.
E a velha:
— Que bobagem é essa? Não é carola por quê? Pois devia ser carola!
Osvaldina, atônita, tinha vontade de se enfiar pelo chão adentro:
— Eu? — balbuciou.
— Claro, evidente! É alguma desonra ser carola? Diga? E? Ora veja!
Depois de duas horas de conversa, em que a futura sogra se serviu dela e a
desfrutou, de alto a baixo, sem o menor tato ou contemplação, Osvaldina saiu de lá, desorientada. E quando ela e Márcio tomaram o ônibus, a pequena teve um suspiro:
— Santa Bárbara!
Márcio, sem perceber a depressão pavorosa da namorada, deu largas ao seu entusiasmo de filho e fã:
— É ou não é o que te disse? A melhor mãe do mundo? Batata...

o trio
Quando começaram a procurar apartamento, para casar, Márcio fez a advertência:
— Olha, rua de bonde não serve porque mamãe tem o sono muito leve. Acorda com qualquer barulho.
Osvaldina caiu das nuvens:
— Quer dizer, então, que ela vai morar com a gente?
E ele, quase ofendido com a pergunta:
— Mas claro! Então, você acha o quê? Que eu ia abandonar minha mãe? E
sofrendo do coração? Nem que o mundo viesse abaixo!
Osvaldina suspirou, apenas. Mas sua decepção foi uma coisa tremenda. Mais tarde, contaria, em casa, a novidade. Foi um deus-nos-acuda. Disseram, francamente:
— Sogra e nora morando juntas é espeto!
Osvaldina admitiu, atribuladíssima:
— Eu também acho! Eu também acho!
Passaram-se dois ou três dias. E, então, a pequena, em conversa com o namorado, propõe o problema:
— Tua mãe vai morar com a gente. E quem vai ser dona de casa?
— Ela.
— Como?
Márcio explodiu:
— Mas, carambolas! Então, você acha que minha mãe, uma senhora, vai
receber ordens de uma garota, como você? Que diabo! Será que você não pensa, não raciocina?

primeira noite
Houve um momento em que, quase, quase, Osvaldina mandou o namorado passear. Mas a verdade é que o amava com um desses amores de fado, uma dessas paixões que escravizam a mulher. Aceitou a coabitação com a sogra, teve a exclamação fatalista e melancólica:
— Seja o que Deus quiser!
Casaram-se. Ela desejaria, no seu fervor de noiva, uma lua-de-mel fora, num hotel de montanha. Ele, porém, a desiludiu, positivamente:
— E a mamãe? Você se esquece de mamãe? Imagine se, em casa, sozinha, ela tem uma coisa, imagine!
Novo suspiro de Osvaldina:
— Paciência!
Para que negar? Essas coisas a enfureciam, a prostravam. Mas enfim casaram-se e a lua-de-mel foi mesmo no apartamento. Na primeira noite, aconteceu, apenas, o seguinte: à uma hora da manhã, despedido o último convidado, os recém-casados recolheram-se, no deslumbramento que se pode imaginar. Era o momento em que tanto um como o outro podiam dizer: "Enfim, sós." A primeira providência de Márcio foi fechar a luz principal do quarto. Ficou acesa apenas a lâmpada discreta, da mesinha de cabeceira. Então, o noivo estreitando a pequena nos braços, delirou:
— Meu anjinho!
Sua mão correu por debaixo da camisola até o joelho ou pouco acima.
Foi neste momento, precioso e inesquecível, que bateram à porta. Era, como não podia deixar de ser, D. Violeta. O filho, instantaneamente, desligou-se do próprio êxtase, arremessou-se. Osvaldina trincou os dentes; fez o comentário interior:
"Velha miserável!" E Márcio, aflito, atendia a D. Violeta. Simplesmente ela abusara de doces, de camarões, de carne de porco, na festa do casamento. Torcia-se, agora.
O filho desesperado pôs as mãos na cabeça:
— Eu não disse à senhora para não comer camarão? A senhora é teimosa que Deus te livre!
O pobre-diabo foi botar a capa de borracha, em cima do pijama, para comprar elixir paregórico. Quis que, enquanto isso, a noiva ficasse com D. Violeta. A pequena, porém, de bruços na cama, num desespero tremendo, disse, entredentes:
— Não fico com tua mãe coisa nenhuma! Eu vou é dormir!

o furor
Osvaldina ficou abandonada, no quarto, numa solidão de viuvez, ao passo que o marido se desvelava à cabeceira materna. A sogra interrompia os seus ais para fazer a observação ressentida: "Tua mulher nem pra saber se eu morri!" De fato, a menina jamais perdoou, nem à sogra, nem ao marido, o naufrágio da primeira noite nupcial. Foi franca:
— Meu filho; nossa lua-de-mel foi-se por água abaixo!
Ele protestava:
— Deixa de ser espírito de porco! Teu gênio é de amargar!
Então, as duas instalaram, naquele apartamento, um inferno. Está claro que, prestigiada pelo filho, D. Violeta levava sempre a melhor. E Márcio, entre os dois fogos, virava-se para a mulher:
— Você tem assinatura com minha mãe!
Osvaldina não podia ouvir um programa de rádio, porque D. Violeta irrompia, lá de dentro, para mudar de estação. As humilhações, as incompatibilidades, os desacatos eram tantos que, um dia, chorando, a nora colocou o problema nos seguintes termos histéricos:
— Uma de nós duas tem que morrer!
Semelhante declaração transpassou Márcio. Ele recuou dois passos, de olhos esbugalhados. Dir-se-ia que a mulher era um chacal, uma hiena. Quis que Osvaldina, imediatamente, pedisse perdão pela blasfêmia. Ela foi irredutível no seu rancor. E, de noite, honestamente ressentido, o rapaz, muito sereno e viril, comunicou-lhe:
— De hoje em diante, durmo na sala.
E ela:
— Ótimo. E melhor assim.

desenlace
Durante umas duas semanas com integral apoio materno, dormiu na sala. Já D. Violeta, exultante com o incidente, soprava, ao ouvido do filho que "o negócio era separação". Todos os dias, com método, com técnica, a velha punha mais lenha no ressentimento do rapaz, açulava o seu rancor. E ele já não olhava  ais para a mulher. Fazia questão de ignorar a sua existência. Com os amigos, perdera as cerimônias; confessava: "A situação lá em casa está braba." Pausa e admitia: "Acho que vou me separar de Fulana."
No dia, porém, em que ia procurar um advogado amigo para tratar do desquite, foi chamado, às pressas. Voou para casa. Um desses edemas agudíssimos e inapeláveis fulminou D. Violeta. Morreu nos braços do filho. Osvaldina, que estava perto, fez seus cálculos: "É agora que ele se atira do 16º andar." Mas não, Márcio chorou e sentiu, não há dúvida. Menos, porém, do que ele próprio poderia esperar. E tanto que, enquanto vestiam a defunta, o rapaz, na sala, choroso, surpreendeu-se a fazer uma coisa detestável e quase sacrílega. Pois não é que, sem sentir e sem querer, estava admirando a mulher, o corpo, a curva do quadril, como se visse Osvaldinha pela primeira vez? Quis desviar o pensamento para rumos mais piedosos e fúnebres.
Todavia, o encanto continuava. Espantado, apertando na mão o pranteadíssimo
lenço, pasmava: "Ora, bolas!"
O fato é que se sentia prodigiosamente outro. Algo se extinguira nele, talvez um medo ou quem sabe? Às três horas da manhã, estavam ele, a esposa e dois ou três parentes fazendo quarto, à sombra dos quatro círios. De repente, ele não se contém; levanta-se, vai até a porta e chama a mulher. Osvaldina obedece. E, então, no corredor, o rapaz dá-lhe um beijo, rápido e chupado, na boca. Sua mão deslizou, crispando-se numa nádega vibrante. Depois, sem uma palavra, lambendo os beiços, voltou. Trêmulo, de olho rutilo, senta-se entre os parentes que cochilavam.