domingo, 1 de janeiro de 2017

Pílula Azul


O pobre velho pulou de alegria quando ouviu falar em Viagra. Quem diria...
 
Ele já tinha tomado tudo quanto era remédio pra dar embalo masculino: guaraná do Amazonas, gínseng, raiz de alcaçuz, vara de gotu, cipõ cola, esquizandra, pimenta caiena, pau de resposta, pólen de flores, catuaba, xíxi de macaco e tudo o mais que lhe indicavam. Mas, qual o quê!
 
Antes de desanimar de vez, o velho chegou a levar seu cacete nos melhores rezadores, mandigueiros, benzedores. Tudo em vão. Aí ficou murcho, jururu. Triste. Bem tristão mesmo. Não havia doutor que desse jeito. Até que escutou no bochincho das curriolas a palavra Viagra. Ouviu falar na pílula azul, um remédio americano. Pois é, americano. "Se é bom pra pau de americano, é bom pra pau de brasileiro", pensou o velho.
 
Se encheu de esperança. Correu atrás de um amigo que ia pros Estados Unidos pra pedir - pedir, não, implorar.
 
- Me traz a Viagra, a pílula azul, a minha esperança.
 
O amigo regateou:
 
- Sei não, parece que já está em falta, não sei se eu vou poder trazer uma caixa.
O velho estrilou:
 
- Mas que caixa? Me traz logo um container de Viagra. O amigo foi. E o velho ficou esperando, ansioso. Nesse meio tempo, começaram os bochinchos. "Essa pílula está matando, só no Rio Grande do Sul matou seis numa noite", diziam. O velho não ligava. Achava que esses comentários eram só pra tirar os assombrados da onda. Não ele. Pra um sujeito que afirmou que a tal de Viagra deixava cego, o velho vacilou:
 
- Deixa cego, é? Melhor pra mim. Aí não vou deixar passar nada. Quem não vê cara não dispensa nenhum bagulho. Sabe como é: às vezes, por causa de uma cara feia, um homem perde uma coisa boa.
 
Nessa toada, o velho ia levando.
 
Até qüe a mulher descobriu que o marido estava com idéia de jerico e começou a pegar no pé do bruto.
 
- Essa droga mata. Tá morrendo gente. Pra que tomar essa porcaria? Quem tem pressão alta é tomar e cair duro. Cardíaco, então, é mais rápido ainda o tombo: é pim, pum; não levanta mais. E diabético? Estremelica e apaga.
 
O velho se picava de raiva. Xingava a velha companheira, acusando ciúme. Na certa, ela estava implicando com a pílula azul porque sabia que ele, com munição, ia correr atrás das belezocas e ela ia ficar na saudade.
 
- Você é quem sabe - respondia a mulher -Quer se matar, se mata. Mas não precisa tomar Viagra, toma formicida e pronto.
 
Sem piedade, o velho ficava cada vez mais cruel com a velha quando ela tocava no assunto, ou seja, sempre. Mas ela não afinava:
 
- Mata. Mata. Mata mesmo. Pode crer. Gente que parecia forte tomou e tombou. Cuidado, não abusa.
O velho reagia azucrinando a velha com o lero de sempre. Porém (e sempre tem um porém), de tanto falar que a pílula azul mata, ela ia encucando o marido. E... Como dizia Mestre Zagaia, velho cabo-de-esquadra que navegou sem bússola e sem bandeira por águas barrentas e sempre contra a maré:
 
"Quem tem... tem medo". E se Mestre Zagaia diz, é que é. O velho foi ficando com medo do Viagra. Jurava pros amigos que quando o viajante chegasse com a pílula azul, ele não ia medrar. Mas que estava encucado, estava.
 
Depois de longa espera, o amigo do velho chegou dos Estados Unidos. Não com um container, mas com pelo menos uma caixa da pílula milagrosa. O velho agradeceu e se fechou em copas. Não disse nada pra ninguém. Nem pra mulher ele contou que estava de posse da pílula mágica. Sabe como é... Hamlet na cabeça, atormentando:
 
"Morrer, dormir, sonhar. Qual será o sonho que teremos no sono da morte? Essa dúvida cruel é que prolonga por muito tempo a vida do desgraçado".
 
O velho pensava: "E se tomo esse Viagra e caio duro? O que os aposentados todos da praça vão dizer de mim? Vão rir paca". Veio a noite. Ele deitou ao lado da mulher. Ela dormiu logo. Ele ficou aceso. Ficou matutando, matutando ("Tomo essa pílula ou não? Tomo ou não? Tomo ou não tomo?"). Nessa dúvida cruel, a noite foi passando. De repente, já dia claro, nos primeiros minutos da manhã, o velho se anima e murmura decidido:
 
-Seja o que Deus quiser. Num impulso, engole a tão preciosa pílula azul. Fica na espera. Não tarda, a calça estufa. O velho fica em ponto de bala. Todo cheio de entusiasmo, acorda a velha e mostra o milagre. Ela também se entusiasma. Aliás, até mais que o velho. Eufórica, abre as pernas e chama; gritando:
-Vem, vem. Vem logo. Esse efeito dura pouco.
 
Todo alegre, o velho pede paciência.
 
-Espera aí. Primeiro quero ir mostrar pra turma da bocha.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 28/03/1999, do Jornal da Orla.

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