domingo, 15 de janeiro de 2017

Bira Morfético

Tem gente que nasce sujo de arara e, por mais que se esforce, não tem jeito de tirar o pé do lodo. O Bira Morfético veio na piorada e ainda conseguiu se atolar mais. Cria maldita dos puleiros das piranhas, ainda pivete ficou entregue a si próprio. A mãe não agüentou o repuxo e, num momento de desespero, bebeu creolina. Sem tomar conhecimento do Bira, a mulher embarcou. Foi falar com Deus. Como não tinha pai, o pivete teve que se valer sozinho. E ele, por ele mesmo, era muito pouco. Quase nada. Ainda mais ali, nas bocas escamosas das quebradas, onde o jogo é bruto e a ordem é a do "Salve-se quem puder".
 
Porém, o Bira foi levado para frente. Apanhando as sobras, encarando a sorte encardida como dava, se atucanando de fome e de frio. Claro que se machucou, se marcou e se sentiu no prejuízo. Mas, por não ter contra quem chorar, segurou as pontas. Depois das pancadas, se fez duro ou sacana. O que conta é que se escolou. Abriu os olhos de ver. Viu. Aprendeu os trampos e os macetes. Se fez gente. Podia escolher seu rumo. Foi quando se entornou ainda mais.
 
Uma ferida nojenta apareceu na mão do Bira. A princípio, ele não ligou. Se limitou a coçar a gronga e a esconder a mão no bolso. Até que, um dia, a miséria ficou escancarada. Foi em cana que adivinharam o perereco. Ele tinha entrado numa rapa geral. Estava aguardando os tiras verificarem se ele não estava devendo nada para a justiça.
 
Como ele sabia que não estava premiado, se plantou tranqüilo. Mas um companheiro de cela meteu as butucas na mão do Bira e fez um escarcéu. Anunciou para os outros presos que havia um morfético ali presente. A bobeira foi coletiva.  Isolaram o Bira num canto do xadrez e meteram a boca no trombone. Fizeram a maior zoeira para o carcereiro tirar o morfético da cela. Coisa que demorou paca.
 
Enquanto esperava que o dono da chave lhe desse destino, o Bira se roeu de mil maneiras. A idéia de estar morfético lhe fundiu a cuca. E o fato de ser enjeitado pelos companheiros lhe ardeu a alma. Rejeição sempre fora o seu problema. E ali, no canto da cela, o Bira sofreu e cresceu. Se agoniou. Reviu lance por lance da sua vida quantas vezes quis ou teve coragem. Constatou que só tinha comido da banda podre. Nunca havia sido o mais forte, nem o mais sabido, nem o mais bonito. E, nessa hora da verdade, se picou de raiva e se jurou. Selou no íntimo que, se estivesse morfético, iria se tornar o capeta. E estava.
 
Depois de dois dias de espera, o Bira foi levado ao médico. Só de olhar a ferida na mão do preso, o doutor já deu a sentença:
 
- Isolamento para ele.
 
E não adiantou estrilo. Arrastaram o Bira para o hospital dos morféticos. Ele foi contra a vontade. Se só se agüentou lá uma semana. A vigilância era mole e ele se mandou. Não quis saber de tratamento. Tinha na cachola uma bola maluca e queria botá-la pra quebrar. Voltou para as bocas. A notícia já tinha chegado na frente. Todo o povão do esquisito sabia que ele estava morfético e ele passou a ser conhecido como o Bira Morférico. Coisa que ele até achou legal. Porque, dali pra frente, era só seu nome piar na parada pra curriola piar nas bases. E ele passou a se servir. Os donos dos botecos, das gafieiras, dos mocós, dos pontos de bico, dos paiós de maconha, e dos cambaus, pagavam ao Bira pra ele não chegar perto dos pesqueiros.
 
E choveu na horta do morfético. A grana que ele queria ele tinha. Mas para ele isto não era o suficiente. Seu negócio era fazer maldade. Não queria ser tratar, nem nada. A bronca que ele tinha das pessoas era muito grande. Ele só queria se vingar. E para isso se aparelhou. Comprou um revólver e começou a aprontar toda espécie de salseiro. Assaltava e esculachava qualquer um.
 
Por destino, a ferida que lhe comia a carne, poupou os dedos do gatilho. Mindinho, seu-vizinho, pai-de-todos caíram todos. Ficaram fura-bolo e mata-piolho. Com esses, o Bira manejava a arma. E possuía uma pontaria certeira. Foi com essa pontaria e com a doença que ele fez o seu reinado. Ficou o bandido dos bandidos. Uma besta fera. Nele não existia a mínima gota de amor. Mas, também, nunca ninguém lhe dera a mínima gota de amor. As mulheres que conseguia era na marra. E muitas, depois de estarem com o Bira, se matavam, com medo de terem ficado premiadas. Nunca o morfético se tocou. Queria que se danassem.
 
Achava bem feito. A sua maior abilolação era quando alguém demonstrava nojo por ele. Teve uma vez em que o Bira matou três no embalo, porque os negos se acanharam e não quiseram apertar a mão que o morfético lhe estendera. Diante da recusa, o Bira não regateou: puxou a arma e arrebitou todos eles. E não tinha esquinapo pro morfético. Os policiais também evitavam dar-lhe uma prensa. Mesmo porque sabiam que não adiantava. Por ser doente. O Bira era mandado pro isolamento e de lá fugia.
 
E o Bira, por essas e outras, ficou o terror de todos. Até que se enrabichou pela Irene Picega, uma pistoleira com muitos anos de janela. Nos primeiros encontros que teve com o morfético, tirou ele de letra. Tratou o Bira bem. Não ouriçou por causa da mão, nem se arredou, mas também não deu pedal pra abordagem.
 
Cozinhou o galo. E o morfético gamou. Como ninguém é de ferro, o Bira estava precisando há muito tempo de uma relação de igual pra igual. E se iludiu na embaixada da Irene. Rodeou em quanto pode. Vários meses o Bira ficou na paquera. Se enredou tanto, que até deu estia pro pavão. Nas águas da Irene, o morfético deixou andar e a curriola pode respirar.
 
Porém, a idéia de jerico atacou o Bira e ele se abriu com a Irene Picega. A mulher quis sair fora. Não deu. Levou a prensa e o Bira ganhou a mina na congesta. A Irene, quando se viu livre do Bira, se empapuçou de cachaça. Com o pretexto de se desinfetar, encharcou de álcool suas roupas e tocou fogo. Virou uma fogueira. Todo mundo viu a mulher arder. O Bira também assistiu ao incêndio. Não fez nada para apagar o fogo e não deixou os outros apagarem. Só se afastou depois que a mulher assou inteira. Saiu murcho, devagarinho e sumiu na noite.
 
No dia seguinte, foi encontrado estarrado com um tiro na orelha. Tinha se matado. Foi esse o fim do pior bandido que já pisou nas quebradas do mundaréu. 
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 17/10/1999, do Jornal da Orla.

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