domingo, 8 de janeiro de 2017

Amor é Amor

Mulher gamada é fogo. Quando se vidra e se amarra num homem, faz das tripas coração para defender seus interesses. Uma mulher apaixonada se transforma dos pés à cabeça. Se é classuda, apronta um salseiro sem vacilar; se é acanhada, faz escândalo sem cerimônia. Não, não tem essa de ficar enrustida e se fechar em copas por questão de categoria. Mulher que deixa o amor no barato não está toda na parada. Pode estar por solidão, simpatia, conveniência e os cambaus, mas não por gama. E isso aí. Não tem erro.
 
Taí a história da Duma Fuleira e da Celeste Bicuda pra ninguém me desmentir. É verdade que o perereco se deu nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Mas se acontecesse nos salões da mais fina sociedade, não me causava espanto. Mulher é mulher em qualquer lugar. Mestre Zagaia, velho cabo de esquadra que navegou sem bandeira por águas barrentas e que embrulhou a solidão em muito lençol encardido, escancarou nas Tabuadas dos Candongas uma valorosa díca: "Depois dos panos arreados, o espetáculo é sempre o mesmo". E se Mestre Zagaía falou, tá falado. Mas deixa isso de lado.
 
O que quero contar é a história de Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda, duas flores da Barra do Catimbó. Bom, elas nasceram lesadas da sorte e só pegaram a pior; bagulho catado no chão da feira nunca fez bem à beleza de ninguém... Uma era gordona e alta; a outra, baixinha e minguada. Mas eram mulheres, embora, à primeira vista, não parecessem.
 
O que pesa na balança é que elas se unharam e se dentaram por amor ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física, mas de muita embaixada. Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes. Servia-se das duas, tocando na base do agrião: pegava a grana da Duma, cumpria a obrigação e ia buscar os pixulés da Celeste, sem deixar a moça em falta.
 
Até que bateu sujeira: o doutor delerusca resolveu acabar com o pesqueiro das piranhas. A Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda escaparam da cana, mas o faturamento caiu às pamparras e o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma da perpétua. Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento profissional; sem pagório, deixou as mulheres na saudade. O caldo engrossou.
 
A Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava enredado pela Bicuda e procurou a rival. Sem conversa, a grandona deu uma tremenda piaba na magrela - que encarou, mas não deu nem pra saída. Encardida, a Bicuda não era de engolir nada enrolado; não gostou nem um pouco de apanhar da Fuleira e ter de correr. E foi à forra.
 
A Celeste Bicuda levou o nome da Dilma Fuleira na macumba, pra mãe de santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, se botou a boquejar nos botecos; garantia que a Duma Fuleira ia murchar até morrer. Não faltou fuxiqueiro pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela, atolada no pântano até o gogó, acreditou que a bananosa toda que curtia era devido à mandinga da Celeste. Picou-se de raiva e jurou, pela luz que a iluminava, que ia pegar a inimiga; a cobriria de pancada até desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
 
A Dilma nem pediu licença pra entrar no barraco da Celeste. Na força bruta, foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos, uns pulos pro alto e, quando desceu, era uma fera matusquela. Passou a mão numa enxada e tocou o bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar pinote. Não contente, a Celeste partiu na captura e derrubou a enxadada no barraco da Dilma,que, apavorada, foi se refugiar na casa do Ariovaldo.
 
A Celeste endoidou mais ainda de ver a rival junto do homem de sua gama. O escarcéu cresceu. Sem se afobar, o Ariovaldo Piolho saiu de fininho e chamou a polícia; a cana chegou e ferrou as duas. No distrito, a Celeste alegou que não tinha nada com a briga; que foi o exu de sua crença que encarnou nela pra acabar com a outra e tal e coisa e coisa e lousa. De zoeira, a Duma entregou tudo como era; disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava na fita como testemunha. O delegado quis saber se ele tinha emprego; não tinha. O Piolho entrou em pua.
 
As mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor. Uma visita o vagau às quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas levam o santo dinheirinho de presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 16/05/1999, do Jornal da Orla.

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