quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Afobado come cru ou queima a boca

Bem que o Pé de Bicho se encrespou. quando viu o Zuzu piar na parada com uma arma de calibre grosso. Foi logo estrilando:
 
- Onde tu vai com essa draga?
 
Sem perder o rebolado, o Zuzu sacou em cima:
 
- A gente não tem um trato? Eu só entro nessa coberto.
 
Essa resposta foi uma pá de cal no quásquás-quás-quás. Realmente. Os dois vagaus tinham um trato. por sinal dos mais cavernosos. Há muito tempo, campaneavam um palacete de bacana e as mumunhas dos moradores. Marijaram que, nos fins de semana, os donos do palacete se arrancavam, pra fora da cidade, deixando de guarda na casa um velho vigia, que mal podia com ele mesmo, e um cachorrão meio abobathado O que significava que era uma moleza afanar o palacete. E, por essas e outras, combinaram um assalto. Só que não falaram em armas. O Pé de Bicho não gostava de sujeira. Com ele era tudo na finura. Sem escarcéu, nem nada.
 
Entrar no palacete sem despertar atenção. ensacar os badulaques todos e sair de fininho, era a idéia do Pé de Bicho. Já o Zuzu, meio apavorado, achava que tinha que ir prevenido pro que desse e viesse. Na sua cuca fundida, sempre passava uma idéia de jerico: "E se a gente leva um flagrante?". Assombrado por isso, carregava a arma.
 
O Pé de Bicho se arrependeu de não ter avisado ao parceiro que era pra não levar revólver. Pra ele, que era escolado por mil e um pererecos, pra ele, que varejou desde pivete por todas as encolhas, a atitude do companheiro não tinha mistério. O fato de o Zuzu levar a draga e arrotar valentia não engrupi, Era medo puro. E, percebendo isso, o Pé de Bicho escamava. Na verdade, o seu único medo era trambicar com parceiro medroso. A opinião do Pé de Bicho era que essa raça maldita sempre complica tudo.
 
Diante do menor perigo, se espantam e fazem besteira, sem ter precisão. Além do que, no caso de bater a cana, o apavorado disfarçado de machão é sempre o primeiro a abrir o bico e entregar o serviço. Por isso. ficou de pulga atrás da orelha, quando o Zuzu mostrou o revólver. Sentiu a situação encardir. Porém, não deu pra trás, nem engrossou. Deu a pala, não grudou, deixou andar. Se fechou em copas e meteu a fuça como tinham planejado.
 
Primeiro, passaram pela porta do palacete, levando um papo chibu pra desbaratinar o vigia. Assim como quem não quer nada, espiaram o casarão de esguelha e se certificaram que estava no jeito. Sem dar bandeira, jogaram pro jardim do palacete uma pelota de carne com vidro picado dentro. Um engodo para aterrar o cachorrão bobalhão. E foram fazer hora num boteco das redondezas. Aí, novamente, o Zuzu deu mancada pro gosto do Pé de Bicho. Foi logo pedindo:
 
- Me dá urna birita caprichada.
 
Ao escutar a ordem, o dono do botequim se mexeu rápido. Mas, antes de ele servir, o Pé de Bicho deu um guento de leve no cupincha:
 
- Vai beber?
 
Com a cara mais natural que tinha, o Zuzu rebateu firme:
 
- Então! E pra dar coragem.
 
O Pé de Bicho esfriou. Pra ele, que era catimbeiro malhado, aquilo era o fim da picada. Partir pra guerra com um pinta que levava arma e bebia pra ter coragem, não era o seu negócio. O Pé de Bicho ficou ruim dentro da roupa. Só não meteu o galho dentro e desfez a parceirada por questão de honra. Ele era tinhoso nessas coisas. Considerava que o erro era seu de topar um assalto com um vagau que não conhecia direito. Agora, não podia reclamar, nem dar recueta. Não pegava bem. Mas, enquanto cozinhava o galo pro tempo andar e o palacete ficar sem o cachorrão, o Pé de Bicho matutava e se jurava de nunca mais agarrar um rabo de foguete com estranho. Que era o que o Zuzu era pra ele.
 
Os dois se conheceram na prisão. Um contou pro outro suas façanhas. Na carteação, o Zuzu falou que fazia e acontecia. O Pé de Bicho botou fé. Quando saíram da galera, se encontraram por acaso. Ambos estavam catando lata e precisando adiantar seus lados. Sem dificuldades, acertaram os ponteiros. Mas, na hora do "vamos ver", o Zuzu veio com as presepaclas. Revólver, bebida pra dar coragem e os cambaus. O Pé de Bicho, limpo. Uma zorra encarnada. Mar, sem remédio. Esperou o parceiro beber e partiram pro assalto.
 
Foi urna moleza engabelar o velho vigia que, confiando no cachorrão. cochilava, sentado no portão do palacete. Sem dificuldades, os ladrões entraram no quintal do casarão pelo muro dos fundos, que dava pra um terreno baldio. O cachorrão cumpria o seu papel na fita. Estava estarrado. Tinha comido a pelota de carne, sem dúvida nenhuma. Sem alarmes, o Pé de Bicho e o Zuzu trabalharam à vontade na porta da cozinha do palacete. Rapidamente a arrombaram; sem problemas ganharam o interior da casa.
 
Tateando no escuro passaram pra sala. Daí, com cuidado, pelas frestas da janela, o Pé de Bicho se certificou que o vigia estava tranquilo, sem se dar conta que a casa estava entregue aos ladrões. E, calmamente, acendeu uma lanterna e deu início à limpeza. O Zuzu fez o mesmo. Tudo quanto era cacareco que os dois pilantrosos iam encontrando, eles ensacavam. Estatuetas, relógios, pratarias e outras bugigangas. Os ladrões não tinham noção do que tinha real valor, ou não. Pra eles, qualquer coisa de casa de grã-fino deveria valer uma fortuna. Jamais eles poderiam imaginar que os badu laques de um palacete pudessem ser fajutos. Por isso, metiam a mão em tudo que podiam carregar. E estavam nessa, até que o Pé de Bicho lembrou que no andar de cima podia ter jóia. Sem vacilar, deu uma dica pro Zuzu:
 
- Fica aqui. Vou lá em cima fuçar e já venho.
 
E, sem esperar resposta, subiu a escada. O Zuzu não chiou, mas não gostou de ser deixado sozinho. Ficou com um bruta medo. Se plantou onde estava, sacou a arma e não se mexeu. No andar de cima, o Pé de Bicho revistou todos os cantos. Afanou coisa paca. jóias, dinheiro, ternos foram entrouxados. Mas, de repente, o Pé de Bicho descobriu uma escada de serviço. Por curiosidade, desceu por ela. Saiu na copa. Logo percebeu que o ouro não estava ali. Mas, em vez de subir pela escada por onde descera, resolveu dar um tempo junto ao parceiro, pra ver como estava a situação. Abriu a porta da copa pra sala.
 
A bruta rangeu nos pinos. Assustado, o Zuzu se virou e, sem verificar, mandou bala. Três caroços braseados, que pegaram o Pé de Bicho no peito. Ele desabou e o melado correu. O Zuzu, afobado. não quis nem saber. Tratou de dar pinote. Pulou o corpo do Pé de Bicho, sem reparar que quem estava ali jogado era o parceiro. Já ia se afastando, quando o Pé de Bicho, com as últimas forças, deu-lhe um guento:
 
- Tu me acertou, lazarento. Tu me acertou em cheio. Agora, se tu me deixar aqui, eu te entrego, Zuzu.
Bambeado com essa ameaça e vendo a bobagem que aprontara. o Zuzu endoidou. Sem cerimônia, completou o esquinapo. Meteu mais dois balaços na cachola do Pe de Bicho. Dessa vez não teve erro. Os miolos do Pé de Bicho saltaram. O tampão da moleira rachou. E ele foi falar com Deus. O Zuzu deu no pé. Mas,  não foi longe. Alertado pelos tiros, o vigia se acendeu. Quando o Zuzu ia pular o muro, o velho deu-lhe um tiro na perna. Foi o suficiente pra pregar ladrão no solo, até a polícia chegar.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 26/09/1999, do Jornal da Orla.

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