quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O fim de um caguete

Bateu sujeira na sombra de Alvinho e toda a cana saiu na sua captura. Sem outro jeito, de teve que se arrancar do seu pedaço. Foi se mocozar nas encolhas de um parceiro de fé, o Vado, ponta-firme. E era daí que, de noite, se mandava pra estarrar os loques e defender seu lado, porque a situação estava encardida e no dava pé deixar tudo por conta do companheirinho. 
 
Com essas e outras, podia levar a barca até pegar estia e a sua barra ficar mais leve. Acontece, porém, que o cupim andava roendo o peito e a caixa de catarro, falhando. Vontade de tuberculoso é broca.  E o Alvinho queria. Como queria! Dia e noite, só tinha vontade da Madalena, uma cabrocha de alta linha, que não deu pra ele carregar na hora do pinote. No que fez mal. Ela, longe, era carga mais pesada. Durante as horas em que ficava enfurnado, sem poder botar a fuça na rua, só pensava nela. Por mais que se esforçasse, não tirava a mina da cuca. Era uma zorra. Um troço de abilolar.
 
Numa noite, depois de arroxar uma farmácia, de onde, além da grana, afanou umas bolinhas, se chapou e não se aguentou. Anunciou pro Vado:
 
- Meu bom, num podendo comigo. Vou ver a Madalena.
 
O cupincha. que estava por dentro das quizilas, se espantou e quis cortar a onda:
 
- Guenta aí! Tu vai dar sopa pro azar por quê? Os homens sabem da tua gamação na Madalena. Eles tão só aí na campana. De botucas ligadas no barraco dela. Se tu pia lá, eles te ganham fácil.
 
Pro Alvinho, aquele papo era do cacete. Sabia que tudo que o Vado falou era positivo. Mas, estava encabreirado. Ardido por dentro. Andou de bobeira de um canto pra outro do mocó. Botou tudo na balança. Ficar enrustido ali era o mesmo que estar na cela. E a Madalena era sua gama de pedra. Valia o risco. Cismou e selou:
 
- Vou, sim.
 
Afirmou com a força de quem sabe querer. O parceiro sentiu o lance. Só chiou por Chiar:
 
- Se tu quer mulher, eu dou uma banda por aí e trago duas pistoleiras pra gente. Não precisa tu ficar dando carga à toa.
 
Esse pla até atucanou o vagau, que estrilou:
 
- Que mulher. poxa? Eu só quero é a Madalena! E tchau mesmo.
 
Botou o pé no rnundaréu e deixou o Vado falando sozinho. Atracou na Favela do Buraco da Lacraia de madrugada. Estava tudo em silêncio. O Alvinho espiou os caminhos e se tocou que estavam todos livres. Nem um tira, nem um cachorrinho estava de plantão. Avançou se esgueirando entre os barracos.
 
Não leve escama. Chegou fácil à moradia da Madalena. Bateu de leve, que não estiva a fim de escarcéu. Nesse momento, um vulto apareceu no fundo do beco. O Alvinho se ouriçou. Mediu a distância e viu que, se a figura fosse da lei, não tinha escapatória. Não dava pra correr. O jeito era encarar. Levou a mão na arma. Mas, teve um breque. O vulto que vinha se aproximando rnanjou o movimento e o reconheceu. Maneirou:
 
- Que é que há, Alvinho? Vai me estranhar?
 
O alô relaxou o salseiro. Pro Alvinho, foi o alívio. Neste instante, a Madalena abriu a janela, se assustou de ver ele ali. Fez dengo antes de abrir a porta. E o Alvinho não quis saber direito quem tinha cruzado com ele. Se era chapa ao ponto de reconhecê-lo no escuro, estava legal. O resto era só com a Madalena. E não deu outra coisa. Matou a saudade.
 
Os primeiros raios de sol iluminavam a favela, quando a gronga se deu. No meio do seu sono satisfeito, o Alvinho foi despertado por um berro:
 
- É cana, Alvinho! Tu tá cercado. Se sair legal, ninguém vai te esculachar. Se aprontar, a gente te dança. Tu tem um tempo pra escolher.
 
Foi broca. A Madalena se botou a rezar. O Alvinho estava feliz. Todo satisfeito, Depois de tanto amor, não queria guerra. Queria paz pra poder ter sempre a sua Madalena. E estava disposto a pagar por tudo. Virou pra mina e pediu:
 
- Tu vai me ver? Tu me espera?
 
Ela olhou nos olhos dele e estava jurado. Não precisa palavra entre os amantes que se amam. E então o Alvinho iniciou o trato:
 
- Quem tá aí no mando?
 
Um tira jovem, meio afobado, doido pra mostrar valentia, era o mais próximo e foi quem engrenou o papo:
 
- E o Doutor Diogo.
 
O Doutor Diogo era manjado pelos bandidos. Não era bronqueado. Só cumpria seu papel. Não dava pancada à toa, nem desmoralizava valente nenhum. Prendia do jeito que desse. Quem se rendia pra ele, não penava. Aquilo era bom pro Alvinho Ele avisou:
 
- Tá legal! Vou sair.
 
Porém, aí, uma idéia de jerico lhe bateu na cachola. Jogou verde:
 
- Vou sair manso. Só que tem um negócio. Quero saber quem me dedou.
 
Deu certo. O tira jovem deu mancada.
 
Sem pensar, deu a ficha.
 
- Foi o Tisiu.
 
Como resposta, o Alvinho jogou a arma pela janela. Ainda escutou o Doutor Diogo bronquear:
 
-Tá falando muito. Quem te mandou cantar a bola?
 
Mas, isso não interessava pro Alvinho. Ele beijou a Madalena. E, já saindo disse:
 
- O Tisiu é que me viu entrar aqui. Deixa ele.
 
Sem mais assunto, o Alvinho se largou na mão dos tiras. Eles, sem perder tempo, meteram as argolas no bandido e o levaram pelos becos da favela, rumo ao carro que estava parado em frente a uma padaria. E na porta da padaria, assim como quem não quer nada, o Tisiu sapeava o lance. O Alvinho tirou ele na pinta. O crioulo desviou o olhar. Mas, teve que escutar uma promessa:
 
- Tá legal, Tisiu. Tá legal. Agora, tu se lembra que tem sempre um dia atrás do outro.
 
Nas quebradas do rnundaréu, até as pedras se encontram. E quem não tem roda larga, acaba sempre comendo capim pela raiz. Um dia, o Tisiu se estrepou. Estava devendo pros homens e entrou em pua. Fez urna mixórdia. Chorou, implorou, pediu pelo amor de Deus pra não meterem ele no mesmo pavilhão que o Alvinho. Conseguiu. Mas, logo o outro soube da entrada do cagüete e daí pra frente perdeu o sossego. Passava o tempo todo tramando um jeito de apanhar o Tisiu. Até que veio a vez.
 
Os bonzões do presídio armaram uma treta cavernosa. Rebuliço geral pra, no meio da confusa, ganharem fuga. O Alvinho topou de primeira. E a catimba se deu. Rolo grosso. A curriola toda querendo ganhar a rua. Só o Alvinho não queria se mandar. Seu aceito era com o Tisiu. Foi pra decisão. Varou grade, parede, bala e tal e coisa. Passou pro pavilhão em que estava o cagüete. Deu congesta no carcereiro, pegou as chaves e invadiu a cela do Tisiu. Se plantou na frente do rato e puxou urna navalha. O crioulo se jogou de joelhos e implorou:
 
- Tem pena de mim. Alvinho. Eu não te sacaneei por gosto. Os homens me apertaram. Te juro por essa luz que me ilumina.
 
Foi a última vez que o Tisiu falou na desgraçada da sida. Hoje, quem for à Favela do Buraco da Lacraia e passar perto das malocas vai ver, parado na porta de uma padaria, esmolando, a triste figura de um crioulo sem língua. 
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 24/10/1999, do Jornal da Orla.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Curso para Chefe

Um índio entra com toda calma no saloon, com uma escopeta numa mão e um balde cheio de bosta na outra.
- Cavalo Galopante querer café!
O garçom lhe serve uma xícara de café, que ele esvazia num gole só.
A seguir o índio joga o balde cheio de bosta para cima, e dá-lhe um tiro certeiro espalhando merda pra todo lado, e vai embora.
Na manhã seguinte ele retorna ao saloon, pede outro café e pergunta por que ainda não limparam tudo.
O dono do bar corre imediatamente para o balcão e diz:
- Como é que é??? De jeito nenhum!!! A gente ainda nem conseguiu terminar de limpar a sua estripulia de ontem e você ainda tem a audácia de voltar aqui, sem nem ao menos dar uma explicação?
Então o índio explica:
- Mim fazer curso para chefe... Querer virar executivo. 
E ontem mim fazer trabalho prático:
1 - mim chegar de manhã;

2 - tomar café;

3 - espalhar merda;

4 - mim desaparecer resto do dia;

5 - Hoje, mim cobrar resultado.

Bira Morfético

Tem gente que nasce sujo de arara e, por mais que se esforce, não tem jeito de tirar o pé do lodo. O Bira Morfético veio na piorada e ainda conseguiu se atolar mais. Cria maldita dos puleiros das piranhas, ainda pivete ficou entregue a si próprio. A mãe não agüentou o repuxo e, num momento de desespero, bebeu creolina. Sem tomar conhecimento do Bira, a mulher embarcou. Foi falar com Deus. Como não tinha pai, o pivete teve que se valer sozinho. E ele, por ele mesmo, era muito pouco. Quase nada. Ainda mais ali, nas bocas escamosas das quebradas, onde o jogo é bruto e a ordem é a do "Salve-se quem puder".
 
Porém, o Bira foi levado para frente. Apanhando as sobras, encarando a sorte encardida como dava, se atucanando de fome e de frio. Claro que se machucou, se marcou e se sentiu no prejuízo. Mas, por não ter contra quem chorar, segurou as pontas. Depois das pancadas, se fez duro ou sacana. O que conta é que se escolou. Abriu os olhos de ver. Viu. Aprendeu os trampos e os macetes. Se fez gente. Podia escolher seu rumo. Foi quando se entornou ainda mais.
 
Uma ferida nojenta apareceu na mão do Bira. A princípio, ele não ligou. Se limitou a coçar a gronga e a esconder a mão no bolso. Até que, um dia, a miséria ficou escancarada. Foi em cana que adivinharam o perereco. Ele tinha entrado numa rapa geral. Estava aguardando os tiras verificarem se ele não estava devendo nada para a justiça.
 
Como ele sabia que não estava premiado, se plantou tranqüilo. Mas um companheiro de cela meteu as butucas na mão do Bira e fez um escarcéu. Anunciou para os outros presos que havia um morfético ali presente. A bobeira foi coletiva.  Isolaram o Bira num canto do xadrez e meteram a boca no trombone. Fizeram a maior zoeira para o carcereiro tirar o morfético da cela. Coisa que demorou paca.
 
Enquanto esperava que o dono da chave lhe desse destino, o Bira se roeu de mil maneiras. A idéia de estar morfético lhe fundiu a cuca. E o fato de ser enjeitado pelos companheiros lhe ardeu a alma. Rejeição sempre fora o seu problema. E ali, no canto da cela, o Bira sofreu e cresceu. Se agoniou. Reviu lance por lance da sua vida quantas vezes quis ou teve coragem. Constatou que só tinha comido da banda podre. Nunca havia sido o mais forte, nem o mais sabido, nem o mais bonito. E, nessa hora da verdade, se picou de raiva e se jurou. Selou no íntimo que, se estivesse morfético, iria se tornar o capeta. E estava.
 
Depois de dois dias de espera, o Bira foi levado ao médico. Só de olhar a ferida na mão do preso, o doutor já deu a sentença:
 
- Isolamento para ele.
 
E não adiantou estrilo. Arrastaram o Bira para o hospital dos morféticos. Ele foi contra a vontade. Se só se agüentou lá uma semana. A vigilância era mole e ele se mandou. Não quis saber de tratamento. Tinha na cachola uma bola maluca e queria botá-la pra quebrar. Voltou para as bocas. A notícia já tinha chegado na frente. Todo o povão do esquisito sabia que ele estava morfético e ele passou a ser conhecido como o Bira Morférico. Coisa que ele até achou legal. Porque, dali pra frente, era só seu nome piar na parada pra curriola piar nas bases. E ele passou a se servir. Os donos dos botecos, das gafieiras, dos mocós, dos pontos de bico, dos paiós de maconha, e dos cambaus, pagavam ao Bira pra ele não chegar perto dos pesqueiros.
 
E choveu na horta do morfético. A grana que ele queria ele tinha. Mas para ele isto não era o suficiente. Seu negócio era fazer maldade. Não queria ser tratar, nem nada. A bronca que ele tinha das pessoas era muito grande. Ele só queria se vingar. E para isso se aparelhou. Comprou um revólver e começou a aprontar toda espécie de salseiro. Assaltava e esculachava qualquer um.
 
Por destino, a ferida que lhe comia a carne, poupou os dedos do gatilho. Mindinho, seu-vizinho, pai-de-todos caíram todos. Ficaram fura-bolo e mata-piolho. Com esses, o Bira manejava a arma. E possuía uma pontaria certeira. Foi com essa pontaria e com a doença que ele fez o seu reinado. Ficou o bandido dos bandidos. Uma besta fera. Nele não existia a mínima gota de amor. Mas, também, nunca ninguém lhe dera a mínima gota de amor. As mulheres que conseguia era na marra. E muitas, depois de estarem com o Bira, se matavam, com medo de terem ficado premiadas. Nunca o morfético se tocou. Queria que se danassem.
 
Achava bem feito. A sua maior abilolação era quando alguém demonstrava nojo por ele. Teve uma vez em que o Bira matou três no embalo, porque os negos se acanharam e não quiseram apertar a mão que o morfético lhe estendera. Diante da recusa, o Bira não regateou: puxou a arma e arrebitou todos eles. E não tinha esquinapo pro morfético. Os policiais também evitavam dar-lhe uma prensa. Mesmo porque sabiam que não adiantava. Por ser doente. O Bira era mandado pro isolamento e de lá fugia.
 
E o Bira, por essas e outras, ficou o terror de todos. Até que se enrabichou pela Irene Picega, uma pistoleira com muitos anos de janela. Nos primeiros encontros que teve com o morfético, tirou ele de letra. Tratou o Bira bem. Não ouriçou por causa da mão, nem se arredou, mas também não deu pedal pra abordagem.
 
Cozinhou o galo. E o morfético gamou. Como ninguém é de ferro, o Bira estava precisando há muito tempo de uma relação de igual pra igual. E se iludiu na embaixada da Irene. Rodeou em quanto pode. Vários meses o Bira ficou na paquera. Se enredou tanto, que até deu estia pro pavão. Nas águas da Irene, o morfético deixou andar e a curriola pode respirar.
 
Porém, a idéia de jerico atacou o Bira e ele se abriu com a Irene Picega. A mulher quis sair fora. Não deu. Levou a prensa e o Bira ganhou a mina na congesta. A Irene, quando se viu livre do Bira, se empapuçou de cachaça. Com o pretexto de se desinfetar, encharcou de álcool suas roupas e tocou fogo. Virou uma fogueira. Todo mundo viu a mulher arder. O Bira também assistiu ao incêndio. Não fez nada para apagar o fogo e não deixou os outros apagarem. Só se afastou depois que a mulher assou inteira. Saiu murcho, devagarinho e sumiu na noite.
 
No dia seguinte, foi encontrado estarrado com um tiro na orelha. Tinha se matado. Foi esse o fim do pior bandido que já pisou nas quebradas do mundaréu. 
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 17/10/1999, do Jornal da Orla.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A compensação

Não faz muito, li um artigo sobre as pretensões literárias de Napoleão Bonaparte.
Aparentemente, Napoleão era um escritor frustrado. Tinha escrito contos e poemas na juventude, escreveu muito sobre política e estratégia militar e sonhava em escrever um grande romance. Acreditava-se, mesmo, que Napoleão considerava a literatura sua verdadeira vocação, e que foi sua incapacidade de escrever um grande romance e conquistar uma reputação literária que o levou a escolher uma alternativa menor, conquistar o mundo.
Não sei se é verdade, mas fiquei pensando no que isto significa para os escritores de hoje e daqui. Em primeiro lugar, claro, leva a pensar na enorme importância que tinha a literatura nos séculos 18 e 19, e não apenas na França, onde, anos depois de Napoleão Bonaparte, um Vitor Hugo empolgaria multidões e faria História não com batalhões e canhões mas com a força da palavra escrita, e não só em conclamações e panfletos mas, muitas vezes, na forma de ficção. Não sei se devemos invejar uma época em que reputações literárias e reputações guerreiras se equivaliam desta maneira, e em que até a imaginação tinha tanto poder. Mas acho que podemos invejar, pelo menos um pouco, o que a literatura tinha então e parece ter perdido: relevância. Se Napoleão pensava que podia ser tão relevante escrevendo romances quanto comandando exércitos, e se um Vitor Hugo podia morrer como um dos homens mais relevantes do seu tempo sem nunca ter trocado a palavra e a imaginação por armas, então uma pergunta que nenhum escritor daquele tempo se fazia é essa que nos fazemos o tempo todo: para o que serve a literatura, de que adianta a palavra impressa, onde está a nossa relevância? Gostávamos de pensar que era através dos seus escritores e intelectuais que o mundo se pensava e se entendia, e a experiência humana era racionalizada. O estado irracional do mundo neste começo de século é a medida do fracasso desta missão, ou desta ilusão.
Depois que a literatura deixou de ser uma opção tão vigorosa e vital para um homem de ação quanto a conquista militar ou política ― ou seja, depois que virou uma opção para generais e políticos aposentados, mais compensação pela perda de poder do que poder, e uma ocupação para, enfim, meros escritores ―, ela nunca mais recuperou a sua respeitabilidade, na medida em que qualquer poder, por armas ou por palavras, é respeitável.
Hoje a literatura só participa da política, do poder e da História como instrumento ou
cúmplice.
E não pode nem escolher que tipo de cúmplice quer ser. Todos os que escrevem no Brasil, principalmente os que têm um espaço na imprensa para fazer sua pequena literatura ou simplesmente dar seus palpites, têm esta preocupação.
Ou deveriam ter. Nunca sabemos exatamente do que estamos sendo cúmplices.
Podemos estar servindo de instrumentos de alguma agenda de poder sem querer, podemos estar contribuindo, com nossa indignação ou nossa denúncia, ou apenas nossas opiniões, para legitmar alguma estratégia que desconhecemos.
Ou podemos simplesmente estar colaborando com a grande desconversa nacional, a que distrai a atenção enquanto a verdadeira história do País acontece em outra parte, longe dos nossos olhos e indiferente à nossa crítica. Não somos relevantes, ou só somos relevantes quando somos cúmplices, conscientes ou inconscientes.
Mas comecei falando da frustração literária de Napoleão Bonaparte e não toquei nas implicações mais importantes do fato, pelo menos para o nosso amor próprio. Se Napoleão só foi Napoleão porque não conseguiu ser escritor, então temos esta justificativa pronta para o nosso estranho ofício: cada escritor a mais no mundo corresponde a um Napoleão a menos. A literatura serve, ao menos, para isso: poupar o mundo de mais Napoleões. Mas existe a contrapartida: muitos Napoleões soltos pelo mundo, hoje, fariam melhor se tivessem escrito os romances que queriam. O mundo, e certamente o Brasil, seriam outros se alguns Napoleões tivessem ficado com a literatura e esquecido o poder.
E sempre teremos a oportunidade de, ao acompanhar a carreira de Napoleões, sub-Napoleões, pseudo-Napoleões ou outras variedades com poder sobre a nossa vida e o nosso bolso, nos consolarmos com o seguinte pensamento: eles são lamentáveis, certo, mas imagine o que seria a sua literatura.
Da série Poesia numa Hora Destas?!
Deus não fez o homem, assim, de improviso em cima da divina coxa numa hora
vaga.
Planejou o que faria com esmero e juízo (e isso sem contar com assessoria paga).
Tudo foi pensado com exatidão antes mesmo do primeiro esboço, e foram anos de
experimentação até Deus dizer que estava pronto o moço.
Mas acontece sempre, é sempre assim não seria diferente do que é agora.
A melhor idéia apareceu no fim e dizem que o polegar Ele bolou na hora.

Fonte: Luís Fernando Veríssimo - Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Amor é Amor

Mulher gamada é fogo. Quando se vidra e se amarra num homem, faz das tripas coração para defender seus interesses. Uma mulher apaixonada se transforma dos pés à cabeça. Se é classuda, apronta um salseiro sem vacilar; se é acanhada, faz escândalo sem cerimônia. Não, não tem essa de ficar enrustida e se fechar em copas por questão de categoria. Mulher que deixa o amor no barato não está toda na parada. Pode estar por solidão, simpatia, conveniência e os cambaus, mas não por gama. E isso aí. Não tem erro.
 
Taí a história da Duma Fuleira e da Celeste Bicuda pra ninguém me desmentir. É verdade que o perereco se deu nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Mas se acontecesse nos salões da mais fina sociedade, não me causava espanto. Mulher é mulher em qualquer lugar. Mestre Zagaia, velho cabo de esquadra que navegou sem bandeira por águas barrentas e que embrulhou a solidão em muito lençol encardido, escancarou nas Tabuadas dos Candongas uma valorosa díca: "Depois dos panos arreados, o espetáculo é sempre o mesmo". E se Mestre Zagaía falou, tá falado. Mas deixa isso de lado.
 
O que quero contar é a história de Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda, duas flores da Barra do Catimbó. Bom, elas nasceram lesadas da sorte e só pegaram a pior; bagulho catado no chão da feira nunca fez bem à beleza de ninguém... Uma era gordona e alta; a outra, baixinha e minguada. Mas eram mulheres, embora, à primeira vista, não parecessem.
 
O que pesa na balança é que elas se unharam e se dentaram por amor ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física, mas de muita embaixada. Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes. Servia-se das duas, tocando na base do agrião: pegava a grana da Duma, cumpria a obrigação e ia buscar os pixulés da Celeste, sem deixar a moça em falta.
 
Até que bateu sujeira: o doutor delerusca resolveu acabar com o pesqueiro das piranhas. A Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda escaparam da cana, mas o faturamento caiu às pamparras e o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma da perpétua. Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento profissional; sem pagório, deixou as mulheres na saudade. O caldo engrossou.
 
A Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava enredado pela Bicuda e procurou a rival. Sem conversa, a grandona deu uma tremenda piaba na magrela - que encarou, mas não deu nem pra saída. Encardida, a Bicuda não era de engolir nada enrolado; não gostou nem um pouco de apanhar da Fuleira e ter de correr. E foi à forra.
 
A Celeste Bicuda levou o nome da Dilma Fuleira na macumba, pra mãe de santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, se botou a boquejar nos botecos; garantia que a Duma Fuleira ia murchar até morrer. Não faltou fuxiqueiro pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela, atolada no pântano até o gogó, acreditou que a bananosa toda que curtia era devido à mandinga da Celeste. Picou-se de raiva e jurou, pela luz que a iluminava, que ia pegar a inimiga; a cobriria de pancada até desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
 
A Dilma nem pediu licença pra entrar no barraco da Celeste. Na força bruta, foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos, uns pulos pro alto e, quando desceu, era uma fera matusquela. Passou a mão numa enxada e tocou o bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar pinote. Não contente, a Celeste partiu na captura e derrubou a enxadada no barraco da Dilma,que, apavorada, foi se refugiar na casa do Ariovaldo.
 
A Celeste endoidou mais ainda de ver a rival junto do homem de sua gama. O escarcéu cresceu. Sem se afobar, o Ariovaldo Piolho saiu de fininho e chamou a polícia; a cana chegou e ferrou as duas. No distrito, a Celeste alegou que não tinha nada com a briga; que foi o exu de sua crença que encarnou nela pra acabar com a outra e tal e coisa e coisa e lousa. De zoeira, a Duma entregou tudo como era; disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava na fita como testemunha. O delegado quis saber se ele tinha emprego; não tinha. O Piolho entrou em pua.
 
As mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor. Uma visita o vagau às quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas levam o santo dinheirinho de presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 16/05/1999, do Jornal da Orla.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Afobado come cru ou queima a boca

Bem que o Pé de Bicho se encrespou. quando viu o Zuzu piar na parada com uma arma de calibre grosso. Foi logo estrilando:
 
- Onde tu vai com essa draga?
 
Sem perder o rebolado, o Zuzu sacou em cima:
 
- A gente não tem um trato? Eu só entro nessa coberto.
 
Essa resposta foi uma pá de cal no quásquás-quás-quás. Realmente. Os dois vagaus tinham um trato. por sinal dos mais cavernosos. Há muito tempo, campaneavam um palacete de bacana e as mumunhas dos moradores. Marijaram que, nos fins de semana, os donos do palacete se arrancavam, pra fora da cidade, deixando de guarda na casa um velho vigia, que mal podia com ele mesmo, e um cachorrão meio abobathado O que significava que era uma moleza afanar o palacete. E, por essas e outras, combinaram um assalto. Só que não falaram em armas. O Pé de Bicho não gostava de sujeira. Com ele era tudo na finura. Sem escarcéu, nem nada.
 
Entrar no palacete sem despertar atenção. ensacar os badulaques todos e sair de fininho, era a idéia do Pé de Bicho. Já o Zuzu, meio apavorado, achava que tinha que ir prevenido pro que desse e viesse. Na sua cuca fundida, sempre passava uma idéia de jerico: "E se a gente leva um flagrante?". Assombrado por isso, carregava a arma.
 
O Pé de Bicho se arrependeu de não ter avisado ao parceiro que era pra não levar revólver. Pra ele, que era escolado por mil e um pererecos, pra ele, que varejou desde pivete por todas as encolhas, a atitude do companheiro não tinha mistério. O fato de o Zuzu levar a draga e arrotar valentia não engrupi, Era medo puro. E, percebendo isso, o Pé de Bicho escamava. Na verdade, o seu único medo era trambicar com parceiro medroso. A opinião do Pé de Bicho era que essa raça maldita sempre complica tudo.
 
Diante do menor perigo, se espantam e fazem besteira, sem ter precisão. Além do que, no caso de bater a cana, o apavorado disfarçado de machão é sempre o primeiro a abrir o bico e entregar o serviço. Por isso. ficou de pulga atrás da orelha, quando o Zuzu mostrou o revólver. Sentiu a situação encardir. Porém, não deu pra trás, nem engrossou. Deu a pala, não grudou, deixou andar. Se fechou em copas e meteu a fuça como tinham planejado.
 
Primeiro, passaram pela porta do palacete, levando um papo chibu pra desbaratinar o vigia. Assim como quem não quer nada, espiaram o casarão de esguelha e se certificaram que estava no jeito. Sem dar bandeira, jogaram pro jardim do palacete uma pelota de carne com vidro picado dentro. Um engodo para aterrar o cachorrão bobalhão. E foram fazer hora num boteco das redondezas. Aí, novamente, o Zuzu deu mancada pro gosto do Pé de Bicho. Foi logo pedindo:
 
- Me dá urna birita caprichada.
 
Ao escutar a ordem, o dono do botequim se mexeu rápido. Mas, antes de ele servir, o Pé de Bicho deu um guento de leve no cupincha:
 
- Vai beber?
 
Com a cara mais natural que tinha, o Zuzu rebateu firme:
 
- Então! E pra dar coragem.
 
O Pé de Bicho esfriou. Pra ele, que era catimbeiro malhado, aquilo era o fim da picada. Partir pra guerra com um pinta que levava arma e bebia pra ter coragem, não era o seu negócio. O Pé de Bicho ficou ruim dentro da roupa. Só não meteu o galho dentro e desfez a parceirada por questão de honra. Ele era tinhoso nessas coisas. Considerava que o erro era seu de topar um assalto com um vagau que não conhecia direito. Agora, não podia reclamar, nem dar recueta. Não pegava bem. Mas, enquanto cozinhava o galo pro tempo andar e o palacete ficar sem o cachorrão, o Pé de Bicho matutava e se jurava de nunca mais agarrar um rabo de foguete com estranho. Que era o que o Zuzu era pra ele.
 
Os dois se conheceram na prisão. Um contou pro outro suas façanhas. Na carteação, o Zuzu falou que fazia e acontecia. O Pé de Bicho botou fé. Quando saíram da galera, se encontraram por acaso. Ambos estavam catando lata e precisando adiantar seus lados. Sem dificuldades, acertaram os ponteiros. Mas, na hora do "vamos ver", o Zuzu veio com as presepaclas. Revólver, bebida pra dar coragem e os cambaus. O Pé de Bicho, limpo. Uma zorra encarnada. Mar, sem remédio. Esperou o parceiro beber e partiram pro assalto.
 
Foi urna moleza engabelar o velho vigia que, confiando no cachorrão. cochilava, sentado no portão do palacete. Sem dificuldades, os ladrões entraram no quintal do casarão pelo muro dos fundos, que dava pra um terreno baldio. O cachorrão cumpria o seu papel na fita. Estava estarrado. Tinha comido a pelota de carne, sem dúvida nenhuma. Sem alarmes, o Pé de Bicho e o Zuzu trabalharam à vontade na porta da cozinha do palacete. Rapidamente a arrombaram; sem problemas ganharam o interior da casa.
 
Tateando no escuro passaram pra sala. Daí, com cuidado, pelas frestas da janela, o Pé de Bicho se certificou que o vigia estava tranquilo, sem se dar conta que a casa estava entregue aos ladrões. E, calmamente, acendeu uma lanterna e deu início à limpeza. O Zuzu fez o mesmo. Tudo quanto era cacareco que os dois pilantrosos iam encontrando, eles ensacavam. Estatuetas, relógios, pratarias e outras bugigangas. Os ladrões não tinham noção do que tinha real valor, ou não. Pra eles, qualquer coisa de casa de grã-fino deveria valer uma fortuna. Jamais eles poderiam imaginar que os badu laques de um palacete pudessem ser fajutos. Por isso, metiam a mão em tudo que podiam carregar. E estavam nessa, até que o Pé de Bicho lembrou que no andar de cima podia ter jóia. Sem vacilar, deu uma dica pro Zuzu:
 
- Fica aqui. Vou lá em cima fuçar e já venho.
 
E, sem esperar resposta, subiu a escada. O Zuzu não chiou, mas não gostou de ser deixado sozinho. Ficou com um bruta medo. Se plantou onde estava, sacou a arma e não se mexeu. No andar de cima, o Pé de Bicho revistou todos os cantos. Afanou coisa paca. jóias, dinheiro, ternos foram entrouxados. Mas, de repente, o Pé de Bicho descobriu uma escada de serviço. Por curiosidade, desceu por ela. Saiu na copa. Logo percebeu que o ouro não estava ali. Mas, em vez de subir pela escada por onde descera, resolveu dar um tempo junto ao parceiro, pra ver como estava a situação. Abriu a porta da copa pra sala.
 
A bruta rangeu nos pinos. Assustado, o Zuzu se virou e, sem verificar, mandou bala. Três caroços braseados, que pegaram o Pé de Bicho no peito. Ele desabou e o melado correu. O Zuzu, afobado. não quis nem saber. Tratou de dar pinote. Pulou o corpo do Pé de Bicho, sem reparar que quem estava ali jogado era o parceiro. Já ia se afastando, quando o Pé de Bicho, com as últimas forças, deu-lhe um guento:
 
- Tu me acertou, lazarento. Tu me acertou em cheio. Agora, se tu me deixar aqui, eu te entrego, Zuzu.
Bambeado com essa ameaça e vendo a bobagem que aprontara. o Zuzu endoidou. Sem cerimônia, completou o esquinapo. Meteu mais dois balaços na cachola do Pe de Bicho. Dessa vez não teve erro. Os miolos do Pé de Bicho saltaram. O tampão da moleira rachou. E ele foi falar com Deus. O Zuzu deu no pé. Mas,  não foi longe. Alertado pelos tiros, o vigia se acendeu. Quando o Zuzu ia pular o muro, o velho deu-lhe um tiro na perna. Foi o suficiente pra pregar ladrão no solo, até a polícia chegar.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 26/09/1999, do Jornal da Orla.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Pílula Azul


O pobre velho pulou de alegria quando ouviu falar em Viagra. Quem diria...
 
Ele já tinha tomado tudo quanto era remédio pra dar embalo masculino: guaraná do Amazonas, gínseng, raiz de alcaçuz, vara de gotu, cipõ cola, esquizandra, pimenta caiena, pau de resposta, pólen de flores, catuaba, xíxi de macaco e tudo o mais que lhe indicavam. Mas, qual o quê!
 
Antes de desanimar de vez, o velho chegou a levar seu cacete nos melhores rezadores, mandigueiros, benzedores. Tudo em vão. Aí ficou murcho, jururu. Triste. Bem tristão mesmo. Não havia doutor que desse jeito. Até que escutou no bochincho das curriolas a palavra Viagra. Ouviu falar na pílula azul, um remédio americano. Pois é, americano. "Se é bom pra pau de americano, é bom pra pau de brasileiro", pensou o velho.
 
Se encheu de esperança. Correu atrás de um amigo que ia pros Estados Unidos pra pedir - pedir, não, implorar.
 
- Me traz a Viagra, a pílula azul, a minha esperança.
 
O amigo regateou:
 
- Sei não, parece que já está em falta, não sei se eu vou poder trazer uma caixa.
O velho estrilou:
 
- Mas que caixa? Me traz logo um container de Viagra. O amigo foi. E o velho ficou esperando, ansioso. Nesse meio tempo, começaram os bochinchos. "Essa pílula está matando, só no Rio Grande do Sul matou seis numa noite", diziam. O velho não ligava. Achava que esses comentários eram só pra tirar os assombrados da onda. Não ele. Pra um sujeito que afirmou que a tal de Viagra deixava cego, o velho vacilou:
 
- Deixa cego, é? Melhor pra mim. Aí não vou deixar passar nada. Quem não vê cara não dispensa nenhum bagulho. Sabe como é: às vezes, por causa de uma cara feia, um homem perde uma coisa boa.
 
Nessa toada, o velho ia levando.
 
Até qüe a mulher descobriu que o marido estava com idéia de jerico e começou a pegar no pé do bruto.
 
- Essa droga mata. Tá morrendo gente. Pra que tomar essa porcaria? Quem tem pressão alta é tomar e cair duro. Cardíaco, então, é mais rápido ainda o tombo: é pim, pum; não levanta mais. E diabético? Estremelica e apaga.
 
O velho se picava de raiva. Xingava a velha companheira, acusando ciúme. Na certa, ela estava implicando com a pílula azul porque sabia que ele, com munição, ia correr atrás das belezocas e ela ia ficar na saudade.
 
- Você é quem sabe - respondia a mulher -Quer se matar, se mata. Mas não precisa tomar Viagra, toma formicida e pronto.
 
Sem piedade, o velho ficava cada vez mais cruel com a velha quando ela tocava no assunto, ou seja, sempre. Mas ela não afinava:
 
- Mata. Mata. Mata mesmo. Pode crer. Gente que parecia forte tomou e tombou. Cuidado, não abusa.
O velho reagia azucrinando a velha com o lero de sempre. Porém (e sempre tem um porém), de tanto falar que a pílula azul mata, ela ia encucando o marido. E... Como dizia Mestre Zagaia, velho cabo-de-esquadra que navegou sem bússola e sem bandeira por águas barrentas e sempre contra a maré:
 
"Quem tem... tem medo". E se Mestre Zagaia diz, é que é. O velho foi ficando com medo do Viagra. Jurava pros amigos que quando o viajante chegasse com a pílula azul, ele não ia medrar. Mas que estava encucado, estava.
 
Depois de longa espera, o amigo do velho chegou dos Estados Unidos. Não com um container, mas com pelo menos uma caixa da pílula milagrosa. O velho agradeceu e se fechou em copas. Não disse nada pra ninguém. Nem pra mulher ele contou que estava de posse da pílula mágica. Sabe como é... Hamlet na cabeça, atormentando:
 
"Morrer, dormir, sonhar. Qual será o sonho que teremos no sono da morte? Essa dúvida cruel é que prolonga por muito tempo a vida do desgraçado".
 
O velho pensava: "E se tomo esse Viagra e caio duro? O que os aposentados todos da praça vão dizer de mim? Vão rir paca". Veio a noite. Ele deitou ao lado da mulher. Ela dormiu logo. Ele ficou aceso. Ficou matutando, matutando ("Tomo essa pílula ou não? Tomo ou não? Tomo ou não tomo?"). Nessa dúvida cruel, a noite foi passando. De repente, já dia claro, nos primeiros minutos da manhã, o velho se anima e murmura decidido:
 
-Seja o que Deus quiser. Num impulso, engole a tão preciosa pílula azul. Fica na espera. Não tarda, a calça estufa. O velho fica em ponto de bala. Todo cheio de entusiasmo, acorda a velha e mostra o milagre. Ela também se entusiasma. Aliás, até mais que o velho. Eufórica, abre as pernas e chama; gritando:
-Vem, vem. Vem logo. Esse efeito dura pouco.
 
Todo alegre, o velho pede paciência.
 
-Espera aí. Primeiro quero ir mostrar pra turma da bocha.
 
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", na edição de 28/03/1999, do Jornal da Orla.