quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Décima Oitava

Ela tem, delegado, um nariz arrebitado, mas isso não é nada. Nariz arrebitado a gente resiste. Mas a ponta do nariz se mexe quando ela fala.
Isso quem resiste? Eu não. Nunca pude resistir mulher que quando fala a ponta do nariz sobe e desce. Muita gente nem nota. É preciso prestar atenção, é preciso ser um obsessivo como eu. O nariz mexe milímetros. Para quem não está vidrado, não há movimento algum. Às vezes só se nota de determinada posição, quando a mulher está de perfil. Você vê a pontinha do nariz se mexendo, meu Deus. Subindo e descendo. No caso dela também se via de frente. Uma vez ela reclamou, "Você sempre olha para a minha boca quando eu falo". Não era a boca, era o nariz. Eu ficava vidrado no nariz. Nunca disse pra ela que era o nariz. Delegado, eu sou louco? Ela ia dizer que era mentira, que seu nariz não mexia. Era até capaz de arranjar um jeito de o nariz não mexer mais.
Mas a culpa, delegado, é da inconstância humana. Ninguém é uma coisa só, nós todos somos muitos. E o pior é que de um lado da gente não se deduz o outro, não é mesmo? Você, o senhor, acreditaria que um homem sensível como eu, um homem que chora quando o Brasil ganha bronze, delegado, bronze? Que se emocionava com a penugem nas coxas dela? Que agora mesmo não pode pensar na ponta do nariz dela se mexendo que fica arrepiado? Que eu seria capaz de atirar um dicionário na cabeça dela? E um Aurelião completo, capa dura, não a edição condensada? Mas atirei. Porque ela também se revelou.
Ela era ela e era outras. A multiplicidade humana, é isso. A tragédia é essa. Dois nunca são só dois, são 17 de cada lado. E quando você pensa que conhece todos, aparece o décimo oitavo. Como eu podia adivinhar, vendo a ponta do narizinho dela subindo e descendo, que um dia ela me faria atirar o Aurelião completo na cabeça dela? Capa dura e tudo? Eu, um homem sensível?
Eu devia ter desconfiado de alguma coisa quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Quem escolhe Wagner para o seu telefone celular? Pode-se saber muita coisa sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar quando soa o seu celular. Eu achei engraçado o Wagner, ela um doce de mulher escolhendo o Wagner, mas na hora não dei maior importância. Hoje sei que Wagner era um sinal. Um dos outros, das outras, que ela tinha por dentro, escolheu o Wagner. Foi uma maneira de dizer que o nariz arrebitado não era tudo, que eu não me enganasse com o seu jeitinho de falar, com o apelido que ela me deu, "Guinguinha", veja o senhor, "Guinguinha", que só depois eu descobri era o nome de um cachorro que ela teve quando era pequena e morreu atropelado, "Guinguinha". Que uma que ela tinha por dentro era uma Valquiria indomável de 2 metros. Hein? Fagner, não. Wagner. O alemão.
Tudo bem, eu também tenho outros por dentro. Nós já estávamos juntos um tempão quando ela descobriu que eu sabia imitar o Silvio Santos. Sou um bom imitador, o meu Romário também é bom, faço um Lima Duarte passável, mas ninguém sabe, é um lado meu que ninguém conhece. Ela ficou boba, disse "Eu não sabia que você era artista". Ela também não sabia que eu tenho pânico de beringela. Não é só não gostar, é pânico mesmo, na primeira vez que ela serviu beringela eu saí correndo da mesa, ela atrás gritando "Guinguinha, o que foi?". Também sou um obsessivo. Reconheço. A obsessão foi a causa de nossa briga final. Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a
gente nasce com várias possibilidades e quando uma predomina as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo. E, vez que outra, querendo aparecer.
Tudo bem, viver juntos é ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os 17 outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus 17 pode não combinar com um dos 17 dela, então a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade é sempre uma acomodação. Eu estava disposto a conviver com ela e suas 17 outras, a desculpar tudo, delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala.
Mas aí surgiu a décima oitava ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões.
Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que "obsedante" e "obcecante" eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse "Rará", depois disse que "obcecante" era com "c" depois do "b", eu disse que não, que também era com "s", fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada ainda mais debochada e eu não me agüentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela. A gente agüenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente.
Arrogância intelectual, não.

Fonte: Luís Fernando Veríssimo - Crônicas Selecionadas da Coluna do Estadão

domingo, 25 de dezembro de 2016

Os dez passos para uma vida saudável.

1- Entre no coração do extraordinário e tudo se normaliza
2- Para cada doença que há na terra, pelo menos uma erva que cura
3- Se não houvesse professores de Medicina nesse mundo, como se aprenderia essa arte? Estudando no grande livro aberto da  natureza, escrito por Deus
4- Um dia vamos respirar estrume e não terra, que é nossa mãe
5- O ser humano sem rumo, ou uma pessoa, que não é, parecer homem que não sabe mais para médico; podem conceder licença onde é o caminho, fica doente, para matar. Mas não podem dar
deprimido, triste, dependente da poder de cura, não podem fazer opinião alheia e sujeito -às mumunhas da propaganda
6- Aceitar a própria natureza ajuda a Deus, cura, livra da revolta e do ódio e mantém acesa a chama do autoconhecimento
7- O especialista só vê parte das coisas, não vê o Universo como um todo
8- Tudo o que acontece no Universo acontece comigo
9 - Quem cura é o médico. Nem o imperador, nem o Papa, nem escolas superiores podem fazer de alguém médico; podem conceder licença para matar.  Mas não podem dar o poder da cura, não podem fazer de um médico verdadeiro se ele não tiver sido ordenado por Deus.
10- Só existe uma dor suportável, a que mantém acesa a chama da dor dos outros
* Texto originalmente publicado na coluna "Janela Santista", do Jornal da Orla.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A Famigerada Ceia Natalina


Dos Preparativos 
Há mais ou menos 40 dias você está se preparando. Já pensou no que comer, beber, onde se dará o grandiosos evento e principalmente, quem será convidado, quesito este de alta complexidade, afinal, sempre tem aquele vizinho intrometido que resolve aparecer logo após a meia noite, de cara cheia, fazendo gracinhas e promovendo um trágico espetáculo que vai contra todas as regras de etiqueta existentes no planeta, contra a convenção de Genebra, e tudo que mais que existir regulamentando o que quer que seja...sim, ele vai aparecer, e vai trazer os filhos bexiguentos, a mocréia da esposa e mais alguns que estão na casa dele para te desejar “feliz natal”, como subterfúgio para encher a pança às suas custas. 
É designado um membro da família para recolher no terminal rodoviário os parentes distantes que o ônibus despejou lá, para isso, usa-se a perua Kombi 69 azul calcinha, apelidada carinhosamente como “desmancha família” ou então o Corcel I cor de abóbora, que mata cinco fácil, fácil.

As Compras 

Aproveitou as parcelas do miserável 13º salário para comprar lembrancinhas para os filhos e parentes mais chegados.
No supermercado, comprou bebidas (um monte delas), tudo que possua etiqueta revelando algum teor alcoólico foi para no carrinho, cerveja, vodka, whisky de terceira, espumantes vagabundas etc, só não comprou água de bateria porque não tinha na prateleira. Quanto às comidas e afins, não passou vontade, frango (pra disfarçar de peru), aves natalinas (da promoção de R$ 6,00), queijos, frios, leguminosas, panetones e afins, levou tudo e quase se ferrou na hora de passar no caixa... para conseguir efetuar a compra, pendurou tudo no cartão de crédito, já premeditando postergar “ad eternum” o pagamento da fatura.

Do Local do evento

Vai acomodar os convidados no puxadinho e na garagem, pegou a lona plástica que o parente utilizou na pintura da casa, arranjou um tambor meia boca pra acomodar parte da bebida (o resto foi depositado na geladeira), instalou a churrasqueira, e está contando com São Pedro, na esperança que a chuva não venha.
Descolou algumas cadeiras e mesas com os parentes e amigos mais próximos, uma vez que, alugar os assentos está fora de cogitação (já torrou o 13º no mercado e quase se ferrou no caixa, lembra?), improvisou um banco para 3 pessoas com a casinha do cachorro, alegando que no Natal, as pessoas devem estar juntas.

Das vestimentas

Tarefa destinada a dona da casa, que comprou na promoção da loja de roupas um vestido “maravilhoso”, com estampado de flores, para a ocasião. No R$ 1,99 aproveitou para adquirir bijuterias e penduricalhos (combinando com o vestido) e também, repôs o que estava faltando no estojo de maquiagem, decerto para tentar reproduzir a imagem do Coringa. Para o namorado/marido/amásio/seja lá qual o estado civil do inerte, arranjou uma roupa “linda”, que mais parece fantasia de carnaval, e obrigou, sob pena de greve de sexo, o vitimado a usar.

Da chegada dos convidados

Recebe a todos no portão, mostra a casa toda (inclusive quartos e banheiros) e por várias vezes usa aquela frase digna de pobre “fica a vontade, só não repara a bagunça” 

Do início da festa

Serve-se bebidas a todos, dizendo “se quiser mais pode pegar lá”, apontando para o tambor meia boca furado que começa vazar água, deixando um piso uma verdadeira armadilha para os desavisados e ébrios, um típico acidente esperando para acontecer.
Começa a assar a carne e termina os preparativos para a ceia da meia noite.
Designa um amigo qualquer para controlar o som, advertindo-o para não aumentar demais o volume, porque o vizinho é um filho da puta e chama a PM por causa do barulho (acredito que o vizinho seja alguém de bom senso), e se começa ouvir pela rua pagode, sertanejo e outros lixos que as rádios bregas reproduzem com fervor.

Dos convidados
Os presentes dividem-se em grupos que não falam entre si, exceto se houver um motivo de discórdia comum, enquanto ocupam-se em observar os trajes e comportamentos alheios, tecendo comentários dos mais indecorosos.
Os cavalheiros vestem calças apertadas, camisetas e camisas que os fazem parecer um desenho animado, quando não, usam botinas e fivelas de cinto enormes, enquanto observam as mulheres com aquele olhar de galã de cinema tarado.
As moças trajam vestidos, saias e shorts que desrespeitam qualquer tipo de pudor enquanto observam os rapazes já tarados, seus trajes, modos e o carro que dirigem.
As distintas senhoras presentes no evento “pagam de novinhas” enquanto ficam ”pirigueteando” na festa com um copo ou lata de cerveja na mão, sempre com vestimentas que incluem salto plataforma, sandália gladiadora e estampas de oncinhas. É comum usarem frases como "estar causando" quando falam entre si, na tentativa de estabelecerem uma forma de comunicação.
Todos bebem desenfreadamente enquanto tiram várias fotos e selfies para postarem nas redes sociais. Aparece um tio chato com um “pau de selfie” e todos sentem certa vergonha alheia por causa do inconveniente parente.

Da lavação de Roupa Suja e das Brigas 
É só o sujeito “encher o pote” que começa a lavação de roupa suja, comenta com todos os convidados as merdas que o parente ou amigo fez durante o ano, mas tudo é espírito natalino.
Começa a confusão, a gritaria e os xingamentos, a festa começa fugir ao controle.
Chega à sogra, para contar a todos como é lastimável sua vida e rebaixa você a uma profissional do baixo meretrício, diz que você deveria tomar rumo e outras coisas mais. 

Do amigo oculto

Começa antes da meia noite a divertida brincadeira, usa-se para dar dicas às supostas qualidades dos indivíduos, enquanto no canto dos não participantes comenta-se: “honesta? O marido dela é corno, ela dá para o leiteiro e pro cara do mercadinho” entre outras pérolas.
Claro que, se usassem palavras como babaca, corno, cretino e filho da puta, ficaria mais fácil adivinhar quem saiu com quem.

Dos comprimentos de Feliz Natal às 00:00h

Todos desejam Feliz Natal uns aos outros, mesmo aquele parente mala que ignorou você o ano todo, ele vem te abraçar com as mãos engorduradas (o morto de fome não aguentou esperar e arrancou a coxa do frango quase à dentadas), segurando uma lata de cerveja (já quente), com a gordura da pobre ave escorrendo pelo canto da boca juntando-se ao suor, formando assim uma mistura heterogênea que ainda não consta da tabela periódica. Ele irá te abraçar e esfregar aquela boca ensebada no seu rostinho lindo, vai querer tirar foto abraçadinho e tudo mais.
Distribui-se as lembrancinhas da loja de R$ 1,99 aos presentes e todos fingem gostar e comentam entre si “o que eu vou fazer com essa merda?, ninguém merece, affffffff etc”

Da Ceia

Os presentes quase se matam para chegar à comida, não parecem mais as pessoas que estavam no início da festa, e sim um bando de refugiados famintos, ávidos por saciar a fome, que pelo visto padecem desde a infância. É uma visão do inferno, até o cachorro participa e tenta pegar algo, pulando sobre a mesa e derrubando o frango que foi disfarçado de peru, que é recolocado rapidamente sobre a mesa enquanto alguém grita “não foi nada, pode comer que tá limpinho”.
Os convidados buscam mais cerveja e assaltam a geladeira da casa, colocando na churrasqueira a mistura da marmita e tudo mais que foi pilhado e que possa ser de alguma forma, ingerido.
Do pós Ceia 
A gritaria e as músicas bregas não tem fim, o filho do primo do seu tio avô começa a cantar, completamente bêbado. Cai o primeiro convidado, quase em coma alcoólico, e todos correm para “acudir”. Outros já estão desmaiados nas demais dependências da casa. 
Alguém diz que vomitaram na pia da cozinha, que está repleta de louça suja, procura-se em vão pelo culpado, a dona da casa pega o desentupidor e parte para o reparo, (o sujeito vomitou na pia e tinha louça lá). Comenta-se em alto e bom tom, para que todos possam ouvir, que o banheiro está entupido, devido a um “torpedo”  que se encontra no vaso sanitário e que obviamente não foi embora com a descarga, todos riem e apontam uns aos outros como supostos autores da obra, seguindo-se de comentários obscenos sobre o que fora encontrado e o diâmetro do orifício de onde saiu “a coisa”. Busca-se mais cerveja, pilham também os armários e outros locais que supostamente estaria repleto de provisões, saqueiam a cozinha.
Antes de ir embora, decidem que todos, voltarão para o almoço, no intuito de comer o que teria sobrado e beber a saideira.
Os anfitriões, após a partida do último convidado começam a limpar a zona que foi deixada para trás, encontra-se o filho de um parente distante deitado dentro do armário. Os familiares que vieram de longe já estão desmaiados e os donos da casa tem que ajeitar no sofá e no chão da sala.

Do dia seguinte

Dez em ponto, chega o primeiro mala para iniciar as atividades, e começar tudo de novo. Por volta das 14 horas, o banheiro foi desentupido. Antes da meia noite, gritam “só tem cinco”, referindo-se a quantidade de cerveja restante e todos decidem ir embora depois de tomar as mesmas, para tentar trabalhar pela manhã ou ao menos conseguir um atestado no PS para não perder o dia. 
E não se preocupe, no ano novo será pior, bem pior...