segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A Estrategista

Bete recomenda um conjunto escuro e sóbrio, mas com um decote que mostre o
rego dos seios. O rego dos seios é importantíssimo. O viúvo precisa ter uma amostra do que existe por baixo do terninho compungido já no abraço de pêsames.
Bete tem um método de prospecção de viúvos. Procura convites para enterro em
que não conste "netos". De preferência nem "filhos". É um sinal de que a mulher morreu jovem. Falecida moça igual a viúvo moço. Precisando de consolo imediato.
O ideal é quando há mais de um convite. Quando a firma do marido também
convida para o enterro. E dá a posição do viúvo na vida. "Nosso gerente", ótimo. 
"Nosso diretor financeiro", melhor ainda. "Nosso diretor-presidente", perfeito! Um  diretor-presidente com 40 anos ou menos é ouro puro. Segundo a Bete.
Bete dá instruções.
― Aumenta o decote. Isso.
― O que que eu digo?
― Chore. Diga "Eu não acredito". Diga "A nossa Pixuxa."
― "Pixuxa?!"
― Era o apelido dela. Estava no convite.
― A nossa Pixuxa. Certo.
― E não esquece de beijar perto da boca, como se fosse descuido.
Bete não cobra pelo seu trabalho. Faz pelo desafio, pelo prazer de um desfecho
feliz, cientificamente preparado. Quando consegue "colocar" uma das suas amigas, sente-se
recompensada. Não é verdade, como dizem alguns, que tenha informantes nos hospitais de primeira classe da cidade e que muitas vezes, quando a mulher morre, ela já tenha um dossiê pronto sobre o viúvo, inclusive com situação financeira atualizada. Trabalha em cima dos convites para enterro, empiricamente, com pouco tempo para organizar o ataque. Procura se informar o máximo possível sobre o viúvo, depois telefona para uma interessada e expõe a situação.
― O nome é bom. Parece que é advogado. Entre 55 e 60 anos. Aproveitável. Dois
filhos, mas já devem ter saído de casa.
― Entre 55 e 60, sei não...
― É pegar ou largar. O enterro é às 5.
Bete vai junto aos velórios. Para dar apoio moral, e para o caso de algum ajuste de
última hora. Como na vez em que, antes de conseguir chegar no viúvo, sua pupila foi
barrada pela mãe dele, que perguntou:
― Quem é você?
A pretendente começou a gaguejar e Bete imediatamente colocou-se ao seu lado.
― A senhora não se lembra da Zequinha? Uma das melhores amigas da Vivi e do
Momô.
Era tanta a intimidade que a mãe do Moraes, embora nunca soubesse que o apelido
do seu filho fosse Momô, recuou e deixou a Zequinha chegar nele, com seu rego.
Foi um dos triunfos da Bete. Naquele mesmo ano, o Moraes e a Zequinha se
casaram. Alguns comentavam que tudo começara no enterro da pobre da Vivi, outros que o
caso vinha de longe.
Ninguém desconfia que foi tudo planejado. Que havia um cérebro de estrategista
por trás de tudo.
Bete tem medo das livre-atiradoras, das que invadem o seu território sem método,
sem classe, enfim, sem a sua orientação. Quando o viúvo é uma raridade, uma pepita ―
menos de 40, milionário, quatro ou cinco empresas participando o infausto evento, sem
herdeiros conhecidos, e bonito ― Bete faz questão que sua orientada chegue cedo no
velório, abrace o prospectado ("A nossa Ju! Eu não acredito!"), beije-o demoradamente
perto da boca, por descuido, e fique ao seu lado até fecharem o caixão, alerta contra outros decotes. Ela deve até tornar-se uma confidente do viúvo.
― Essa que me cumprimentou agora... Não tenho a menor idéia quem é.
― Eu também, nunca vi.
― Não é uma amiga da Ju?
― Vulgar assim? Acho que não.
E a Bete cuida da retaguarda. Observa a aproximação de possíveis concorrentes e,
quando pode, barra o seu progresso em direção ao viúvo. ("Por favor, vamos deixar o
homem em paz.") De tanto freqüentar velórios, Bete já conhece a concorrência.
Sabe que elas vêm dispostas a tudo. Quando o viúvo é muito importante e forma-se
uma multidão à sua volta, dificultando o acesso, abrem caminho a cotoveladas. Não hesitam nem em ficar de quatro e engatinhar, entre pernas, até o viúvo. A Bete compreende. Sabe o valor de um bom viúvo em tempos como este. Por isso se sente justificada em usar qualquer meio para impedir o sucesso das outras e assegurar o sucesso das suas. Até a coação física e moral.
"Estamos numa selva", diz a Bete, para encorajar suas discípulas. E as instrui a não
desanimar quando não conseguem prender a atenção do viúvo no velório. Afinal,conseguem prender a atenção do viúvo no velório. Afinal, sempre existe a missa do sétimo dia.

Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Constatações

Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.

Charles Bukowski

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Depressão

Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: "as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo". Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.

Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, eu sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.

Charles Bukowski

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A DERROCADA MORAL DO BRASIL COMEÇOU HÁ MUITO...

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto...”.

Essa foi a obra da República nos últimos anos.

No outro regime (monarquia) o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre - as carreiras políticas lhe estavam fechadas.

Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais.

Na República os tarados são os taludos. Na República todos os grupos se alhearam do movimento dos partidos, da ação dos Governos, da prática das instituições. Contentamo-nos, hoje, com as fórmulas e aparência, porque estas mesmo vão se dissipando pouco a pouco, delas quase nada nos restando.

Apenas temos os nomes, apenas temos a reminiscência, apenas temos a fantasmagoria de uma coisa que existiu, de uma coisa que se deseja ver reerguida, mas que, na realidade, se foi inteiramente.

E nessa destruição geral de nossas instituições, a maior de todas as ruínas, Senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos, pelo interesse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos Governos. E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolve um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem..."

(Rui Barbosa - Discursos Parlamentares - Obras Completas - Vol. XLI - 1914 - TOMO III - pág. 86/87)