quarta-feira, 23 de julho de 2014

TRANSAS DAS SEXTAS-FEIRAS



O moço bom saiu do trampo na sexta-feira, às seis da tarde. Como fazia toda sexta-feira, fez uma horinha num boteco do centro, contou cascata e escutou cascata dos seus cupinchas, tomou uns uísques, pegou embalo, retirou o carango do estacionamento e se picou pra casa da noiva. Pro moço bom, a vida era bela. E, pra ele, sexta-feira era um dia santificado. O trabalho rendia às baldas. Tudo deslanchava, porque em tudo, nesse dia, o moço bom punha alegria. Desde que acordava, carregava a esperança da grande noite de sexta-feira, que não era nenhum perereco sentido, mas que pro moço bom era o pagode: beber com os chapas no boteco, noivar até meia-noite e depois farrear nas bocas mais encardidas, onde as pistoleiras se badalam até de madrugada.

E viva o loque de sexta-feira, que não tem que trabalhar no sábado! Ele é a alegria do circo.

***
Na Favela do Urubu com Fome, que fica nas imediações da Barra do Catimbó, lugarzinho maldito encravado nas quebradas do mundaréu, bem onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, às seis horas da tarde, a negritinha Odete Fuleira acordou seu companheiro Leléu, que estava curtindo uma retumbante ressaca. Mal o Leléu abriu as botucas, a piranha deu o estrilo:

— Como é que é? Tu vai deixar a sexta-feira se esperdiçar ou vai sair pro trampo? Vê lá. A vida tá custando os olhos da cara, e não é com tu enchendo a caveira de cachaça todo dia que a gente vai adiantar o lado da gente.

Sem chiar, o Leléu escutou o quás-quás-quás. Levantou, se espreguiçou, pegou o revólver debaixo do travesseiro, meteu na cinta e se mandou pra rua. O Leléu era ponta-firme. Não dava cartaz pra mulher. Porém, quando a negritinha Odete Fuleira tinha razão de chiar, ele se fechava em copas. E nesse lance a piranha estava certa. Sexta-feira era dia de loque sair pelas ruas fazendo zoeira. Bom dia pra vagau escolado armar o pesqueiro.

E viva o loque que se embandeira na sexta-feira por não ter que trabalhar no sábado!!

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O moço bom, por volta das oito horas da noite, piou na casa da noivinha. Estava eufórico com os uisquinhos na cuca. Não quis nem fazer sala com os futuros sogros. Mandou a noivinha se vestir com seu pano mais chique e dar dispensa pra janta. Na sexta-feira, o moço bom levava a noivinha pra uns programas diferentes. Jantavam num restaurante bacana, depois iam pro cinema. Era o máximo, esse babado, pro moço bom e pra noivinha. Ele, com esse passeinho, calava a consciência na hora em que, no fim da farra, chegava a conta machucando o bolso e dando remorso. E, nesses lances com a noiva, o moço bom não economizava. A noivinha até reclamava nessas ocasiões:

— Benzinho, desse jeito a gente não junta dinheiro pra casar.
Essa pala deixava o moço bom ouriçado:
— Mas não é legal? Então deixa andar. Temos que aproveitar um pouco. E hoje é sexta-feira. Dia de comer bem, ver um bom filme e descansar a cachola. Amanhã não trabalho.

E viva o loque, o boêmio das sextas-feiras! Ele se diverte à toa e gasta muito.

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Mas, na Favela do Urubu com Fome, o Leléu não estava a passeio. Sexta-feira era o dia em que ele armava o pesqueiro, e ele não dava moleza. Juntou três vagaus meio pirados da cabeça, gente dura que não tem nada a perder, e deu o serviço:

— Vamos abafar uns trouxas. Afanamos um pé-de-borracha e saímos por aí fazendo desgraça. Quem vier nas minhas águas tem que vir pra não enjeitar quizila. A gronga que pintar na fita a gente topa. Se aparecer cana, é arrebite neles. É melhor ir falar com Deus do que com o delerusca.

Toda a patota concordou. Então, queimaram maconha pra ficar mais ferozes do que já eram. E nessa maldita fumaça eles se picaram de raiva contra a humanidade. As frustrações todas subiram nas idéias. Falta de comida, falta de carinho, falta de tudo deu naquele time de gente sem faróis na vida. E foi com a carga pesada do sofrimento todo, de vidas ainda curtas, mas sofridas e desprezadas, que a curriola do Leléu da negritinha Odete Fuleira começou a trilhar, naquela noite de sexta-feira, os estranhos, estreitos e escamosos caminhos do roçado do bom Deus. Iam a fim de desforrar num otário qualquer os esquinapos todos.

***
Exatamente à meia-noite, o moço bom saiu do cinema com a noivinha. Conferiram no relógio a hora e viram que estavam atrasados. O sogro do moço bom era todo cheio de moral regulada por horário. Não perderam tempo. Entraram no automóvel e se arrancaram. Iam chocados com o filme a que assistiram. Eram tantos os conflitos humanos que se escancararam que eles se entupiram. E mesmo porque tinham pressa de chegar. A noivinha, pra evitar a bronca do pai, e o moço bom, pra se mandar pra gandaia.

Porém (e sempre tem um porém), num cruzamento da Teodoro Sampaio, o farol fechou e o moço bom teve que brecar. Na sexta-feira, ele jamais cruzava um farol fechado. É noite de bêbado, ninguém deve se fiar nos outros. Por essas e outras, o moço bom brecou. Aí, o Leléu saiu das encolhas com sua curriola. Cercaram o carango e encostaram as armas na cabeça da noivinha e na do moço bom. Renderam os dois e deram as ordens:

— Abre a porta e nada de truque, senão dança.

O moço bom não era nenhum covarde, mas acreditava nas pessoas e gostava às pamparras da vida. Se iludiu, certo de que podia ganhar a parada no papo. Sabia pouco sobre os lesados da sociedade. Deixou entrar os bandidos e foi logo pedindo estia pra noivinha. Não teve colher de chá. Foi levado com noiva e tudo pros confins da Vila Sônia. Os bandidos nequimbaram toda sua grana, seu relógio, e o pior: esculacharam sua noivinha. Aí, ele quis espernear, mas era tarde. O lugar se prestava pra um salseiro, e o Leléu mandou cinco tiros no moço bom. Depois, matou a noivinha dele de quebra e se espiantou com a turma no carango.
Era mais uma presepada de sexta-feira.


Plínio Marcos

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