quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Sacrilégio

No fim de 15 dias de namoro,
ele veio com a idéia:
— Sabe de uma coisa? Preciso te apresentar à mamãe.
— Quando?
Ele pensou um pouco:
— Que tal amanhã?
— Ótimo!
Combinaram, então de pedra e cal, que seria no dia seguinte, de qualquer
maneira. Desde que se conheciam e se namoravam que Márcio quase só falava na
santa senhora. Era mamãe pra cá, mamãe pra lá. E afirmava mesmo, num desafio a
qualquer outra opinião em contrário:
— A melhor mãe do mundo é a minha. Só vendo!
E de tanto ouvir falar na futura sogra, Osvaldina fazia a reflexão meio irritada:
"Ora, bolas! Pensa que só a mãe dele presta e as outras não!" Fosse como fosse,
preparou-se para conhecer uma senhora tão exaltada nas suas virtudes esplêndidas.
Antes, Mário, atarantado, fez-lhe mil e uma advertências: "Batom, não, meu anjo!
Mamãe não gosta de pintura." E, já a caminho, ele teve outra lembrança: "Nada de
gíria, porque mamãe não tolera gíria." Enfim, conheceram-se, a nora e a sogra. O
filho precipitava-se, a todo momento:
— Não senta aí, não, mamãe. Faz golpe de ar!

as duas
Inicialmente, a velha, sem dizer uma palavra, e sem nenhuma cordialidade
aparente, imobilizou a pequena com um desses olhares implacáveis, que parecem
despir a pessoa, virá-la pelo avesso. Em seguida, em tom seco e inapelável de ordem,
disse:
— Sente-se.
E, com o rosto impassível, inescrutável, foi fazendo perguntas sobre perguntas.
Antes de mais nada, quis saber se Osvaldina era religiosa. A menina, presa de
uma inibição mortal, admitiu:
— Acredito em Deus, mas não sou carola.
E a velha:
— Que bobagem é essa? Não é carola por quê? Pois devia ser carola!
Osvaldina, atônita, tinha vontade de se enfiar pelo chão adentro:
— Eu? — balbuciou.
— Claro, evidente! É alguma desonra ser carola? Diga? E? Ora veja!
Depois de duas horas de conversa, em que a futura sogra se serviu dela e a
desfrutou, de alto a baixo, sem o menor tato ou contemplação, Osvaldina saiu de lá,
desorientada. E quando ela e Márcio tomaram o ônibus, a pequena teve um suspiro:
— Santa Bárbara!
Márcio, sem perceber a depressão pavorosa da namorada, deu largas ao seu
entusiasmo de filho e fã:
— É ou não é o que te disse? A melhor mãe do mundo? Batata...
o trio
Quando começaram a procurar apartamento, para casar, Márcio fez a advertência:
— Olha, rua de bonde não serve porque mamãe tem o sono muito leve. Acorda
com qualquer barulho.
Osvaldina caiu das nuvens:
— Quer dizer, então, que ela vai morar com a gente?
E ele, quase ofendido com a pergunta:
— Mas claro! Então, você acha o quê? Que eu ia abandonar minha mãe? E
sofrendo do coração? Nem que o mundo viesse abaixo!
Osvaldina suspirou, apenas. Mas sua decepção foi uma coisa tremenda. Mais
tarde, contaria, em casa, a novidade. Foi um deus-nos-acuda. Disseram, francamente:
— Sogra e nora morando juntas é espeto!
Osvaldina admitiu, atribuladíssima:
— Eu também acho! Eu também acho!
Passaram-se dois ou três dias. E, então, a pequena, em conversa com o namorado,
propõe o problema:
— Tua mãe vai morar com a gente. E quem vai ser dona de casa?
— Ela.
— Como?
Márcio explodiu:
— Mas, carambolas! Então, você acha que minha mãe, uma senhora, vai
receber ordens de uma garota, como você? Que diabo! Será que você não pensa, não
raciocina?
primeira noite
Houve um momento em que, quase, quase, Osvaldina mandou o namorado
passear. Mas a verdade é que o amava com um desses amores de fado, uma dessas
paixões que escravizam a mulher. Aceitou a coabitação com a sogra, teve a exclamação
fatalista e melancólica:
— Seja o que Deus quiser!
Casaram-se. Ela desejaria, no seu fervor de noiva, uma lua-de-mel fora, num
hotel de montanha. Ele, porém, a desiludiu, positivamente:
— E a mamãe? Você se esquece de mamãe? Imagine se, em casa, sozinha, ela
tem uma coisa, imagine!
Novo suspiro de Osvaldina:
— Paciência!
Para que negar? Essas coisas a enfureciam, a prostravam. Mas enfim casaramse
e a lua-de-mel foi mesmo no apartamento. Na primeira noite, aconteceu, apenas, o
seguinte: à uma hora da manhã, despedido o último convidado, os recém-casados
recolheram-se, no deslumbramento que se pode imaginar. Era o momento em que
tanto um como o outro podiam dizer: "Enfim, sós." A primeira providência de Márcio
foi fechar a luz principal do quarto. Ficou acesa apenas a lâmpada discreta, da mesinhade-
cabeceira. Então, o noivo estreitando a pequena nos braços, delirou:
— Meu anjinho!
Sua mão correu por debaixo da camisola até o joelho ou pouco acima.
Foi neste momento, precioso e inesquecível, que bateram à porta. Era, como
não podia deixar de ser, D. Violeta. O filho, instantaneamente, desligou-se do pró-
prio êxtase, arremessou-se. Osvaldina trincou os dentes; fez o comentário interior:
"Velha miserável!" E Márcio, aflito, atendia a D. Violeta. Simplesmente ela abusara
de doces, de camarões, de carne de porco, na festa do casamento. Torcia-se, agora.
O filho desesperado pôs as mãos na cabeça:
— Eu não disse à senhora para não comer camarão? A senhora é teimosa que
Deus te livre!
O pobre-diabo foi botar a capa de borracha, em cima do pijama, para comprar
elixir paregórico. Quis que, enquanto isso, a noiva ficasse com D. Violeta. A pequena,
porém, de bruços na cama, num desespero tremendo, disse, entredentes:
— Não fico com tua mãe coisa nenhuma! Eu vou é dormir!
o furor
Osvaldina ficou abandonada, no quarto, numa solidão de viuvez, ao passo
que o marido se desvelava à cabeceira materna. A sogra interrompia os seus ais para
fazer a observação ressentida: "Tua mulher nem pra saber se eu morri!" De fato, a
menina jamais perdoou, nem à sogra, nem ao marido, o naufrágio da primeira noite
nupcial. Foi franca:
— Meu filho; nossa lua-de-mel foi-se por água abaixo!
Ele protestava:
— Deixa de ser espírito de porco! Teu gênio é de amargar!
Então, as duas instalaram, naquele apartamento, um inferno. Está claro que,
prestigiada pelo filho, D. Violeta levava sempre a melhor. E Márcio, entre os dois
fogos, virava-se para a mulher:
— Você tem assinatura com minha mãe!
Osvaldina não podia ouvir um programa de rádio, porque D. Violeta irrompia,
lá de dentro, para mudar de estação. As humilhações, as incompatibilidades, os
desacatos eram tantos que, um dia, chorando, a nora colocou o problema nos seguintes
termos histéricos:
— Uma de nós duas tem que morrer!
Semelhante declaração transpassou Márcio. Ele recuou dois passos, de olhos
esbugalhados. Dir-se-ia que a mulher era um chacal, uma hiena. Quis que Osvaldina,
imediatamente, pedisse perdão pela blasfêmia. Ela foi irredutível no seu rancor. E,
de noite, honestamente ressentido, o rapaz, muito sereno e viril, comunicou-lhe:
— De hoje em diante, durmo na sala.
E ela:
— Ótimo. E melhor assim.
desenlace
Durante umas duas semanas com integral apoio materno, dormiu na sala. Já
D. Violeta, exultante com o incidente, soprava, ao ouvido do filho que "o negócio
era separação". Todos os dias, com método, com técnica, a velha punha mais lenha
no ressentimento do rapaz, açulava o seu rancor. E ele já não olhava mais para a
mulher. Fazia questão de ignorar a sua existência. Com os amigos, perdera as cerimônias;
confessava: "A situação lá em casa está braba." Pausa e admitia: "Acho que
vou me separar de Fulana."
No dia, porém, em que ia procurar um advogado amigo para tratar do desquite,
foi chamado, às pressas. Voou para casa. Um desses edemas agudíssimos e
inapeláveis fulminou D. Violeta. Morreu nos braços do filho. Osvaldina, que estava
perto, fez seus cálculos: "É agora que ele se atira do 16a andar." Mas não, Márcio
chorou e sentiu, não há dúvida. Menos, porém, do que ele próprio poderia esperar. E
tanto que, enquanto vestiam a defunta, o rapaz, na sala, choroso, surpreendeu-se a
fazer uma coisa detestável e quase sacrílega. Pois não é que, sem sentir e sem querer,
estava admirando a mulher, o corpo, a curva do quadril, como se visse Osvaldinha
pela primeira vez? Quis desviar o pensamento para rumos mais piedosos e fúnebres.
Todavia, o encanto continuava. Espantado, apertando na mão o pranteadíssimo
lenço, pasmava: "Ora, bolas!"
O fato é que se sentia prodigiosamente outro. Algo se extinguira nele, talvez
um medo ou quem sabe? Às três horas da manhã, estavam ele, a esposa e dois ou
três parentes fazendo quarto, à sombra dos quatro círios. De repente, ele não se
contém; levanta-se, vai até a porta e chama a mulher. Osvaldina obedece. E, então,
no corredor, o rapaz dá-lhe um beijo, rápido e chupado, na boca. Sua mão deslizou,
crispando-se numa nádega vibrante. Depois, sem uma palavra, lambendo os beiços,
voltou. Trêmulo, de olho rutilo, senta-se entre os parentes que cochilavam.


Nelson Rodrigues

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