terça-feira, 1 de julho de 2014

O Monstro

A esposa soluçou no telefone:
— Vem depressa! Chispando! Vem!...
Não perdeu o tempo. Berrou para o sócio: "Agüenta a mão, que eu não sei se
volto." Acabou de enfiar o paletó no elevador. E quebrava a cabeça, em conjecturas
infinitas: "Que será?" Não quisera perguntar a Flávia com medo de uma notícia
trágica. Já no táxi calculava: "Algum bode!" Mas a hipótese mais persuasiva era a
de uma morte na família da mulher. O sogro sofria do coração e não era nada improvável
que tivesse sobrevindo, afinal, o colapso prometido pelo médico. Imaginou a
morte do velho. E a verdade é que não conseguiu evitar um sentimento de satisfação
envergonhada e cruel. Desceu na porta de casa tão atribulado que deu ao chofer uma
nota de duzentos cruzeiros e nem se lembrou do troco. Invadiu aquela casa grande
da Tijuca, onde morava com a mulher, os sogros, três cunhadas casadas e uma solteira.
Desde logo, percebeu que não havia hipótese de morte. A inexistência de
qualquer alarido feminino, numa casa de tantas mulheres, era sintomática. Descontente,
fez o comentário interior: "Ora, bolas!"
Foi encontrar, porém, a esposa no quarto, num desses prantos indescritíveis.
Sentou-se, a seu lado, tomou entre as suas as mãos da mulher: "Mas que foi? Que
foi?" Primeiro, ela se assoou; e, então, fungando muito, largou a bomba:
— Meu filho, nós temos um tarado, aqui, em casa!
Maneco empalideceu. Por um momento, teve a suspeita de que o "tarado"
fosse ele mesmo, Maneco. Chegou a pensar: "Bonito! Descobriu alguma bandalheira
minha!" Engoliu em seco, balbuciou: "Mas quem?" E ela:
— O Bezerra!...
o "tarado"
Quando percebeu que não estava em causa, ganhou alma nova. Uma súbita
euforia o dominou: e preparou-se, ávido, para ouvir o resto. O Bezerra era casado
com Rute, a irmã mais velha de Flávia. Maneco quis saber: "Por que tarado?" Flávia
explodiu:
— Esse miserável não soube respeitar nem este teto! — e apontava, realmente,
para o teto. — Sabe o que ele fez? Faz uma idéia? — baixou a voz: — Aqui,
dentro de casa, quase nas barbas da esposa, deu em cima de uma cunhada, com o
maior caradurismo do mundo. Vê se te agrada!
Assombrado, perguntou: "Que cunhada?" Pensava na própria mulher. E só
descansou quando Flávia disse o nome, num sopro de horror:
— Sandra, veja você! Sandra! Escolheu, a dedo, a caçula, uma menina de 17
anos, que nós consideramos como filha! É um cachorro muito grande!...
— Papagaio! — gemeu o marido, no maior espanto de sua vida; ergueu-se:
— Sabe que eu estou com a minha cara na chão? Besta?...
Agora ela o interpelava: "É ou não é um tarado?" Então, com as duas mãos
enfiadas nos bolsos, andando de um lado para outro, Maneco arriscou algumas ponderações:
"Olha, meu anjo, eu sempre te disse, não te disse? Que cunhada não deve
ter muita intimidade com cunhado?"
E insistiu:
— Claro! Evidente! Onde já se viu? Porque, vamos e venhamos, o que é que
é uma cunhada? Não é a mesma coisa que uma irmã. E ninguém é de ferro, minha
filha, ninguém é de ferro! Tua irmã menor, por exemplo. Quando ela comprou aquele
maiô amarelo, de lastex ou coisa que o valha, deu uma exibição, aqui, dentro, para
os cunhados. Isso está certo?...
Flávia ergueu-se, apavorada:
— Mas vem cá. Você está justificando esse cretino! Está? Então, você é igual
a ele! Tarado como ele!...
Em pânico, Maneco arremessou-se: "Deus me livre! Não estou justificando
ninguém e quero que o Bezerra vá para o raio que o parta!" Recuando, a mulher
perguntava: "Quando você olhou para Sandra, no tal dia, você sentiu o quê? Hein?"
O rapaz ofegou:
— Eu? Nada, minha filha, nada! Eu sou diferente. Eu me casei contigo, que
és a melhor mulher do mundo. Ouviste? — falava com a boca dentro da orelha da
esposa. — Nenhuma mulher é páreo pra ti. Nenhuma chega a teus pés. Dá um
beijinho, anda?
Agarrou-a, deu-lhe um beijo, cuja duração prolongou ao máximo de sua própria
capacidade respiratória. Quando a largou, mais morta que viva, com batom até
na testa, Flávia gemeu, maravilhada: "Sabes que eu gosto do teu cinismo?"
E ele jocoso:
— Aproveita! Aproveita!
o drama
Mas a situação era de fato crítica. A família, sem exclusão das criadas, passou
a abominar o tarado. Até o cão da casa, um vira-lata disfarçado, parecia contagiado
pelo horror; e andava, pelas salas, soturnamente, de orelhas arriadas. Quanto ao
pobre culpado, estava, na garagem da casa, em petição de miséria. Atirado num
canto, num desmoronamento total, cabelo na testa, gemeu para Maneco: "Só faltam
me cuspir na cara!" Maneco olhou para um lado, para o outro, e baixou a voz:
— Mas que mancada! Como é que você me dá um fora desses!
Estrebuchou: "Eu não dei fora nenhum!" Agarrou-se ao cunhado: "Por essa
luz que me alumia, te juro que não fiz nada. Ela é que deu em cima de mim, só
faltou me assaltar no corredor. Tive tanto azar que ia passando a criada. Viu tudo!
Uma tragédia em 35 atos!"
Ralado de curiosidade, Maneco baixou a voz:
— E o que é que houve, hein?
O outro foi modesto:
— Não houve nada. Um chupão naquela boca. Eu beijava aquele corpo
todinho. Começava no pé. Mas não tive nem tempo. Estão fazendo um bicho-desete-
cabeças, não sei por quê!...
Maneco esbugalhava os olhos, numa admiração misturada de inveja: "Você é
de morte!" Doutrinou o desgraçado: "Teu mal foi entrar de sola. Por que não usaste
de diplomacia?" Bezerra apertou a cabeça entre as mãos:
— Só estou imaginando quando o velho souber!
Admitiu:
— Vai subir pelas paredes!
o sogro
E de fato, o Dr. Guedes era o terror e a veneração daquela família. Esposa,
filhas e genros, numa unanimidade compacta, tributavam-lhe as mesmas homenagens.
Era de alto a baixo, uma dessas virtudes tremendas que desafiam qualquer
dúvida. Infundia respeito, desde a indumentária. Com bom ou mau tempo, andava
de colete, paletó de alpaca, calça listrada e botinas de botão. Com os cunhados,
Maneco desabafava: "Sabe o que é que me apavora no meu sogro?" Explicava:
"Um sujeito que usa ceroulas de amarrar nas canelas! Vê se pode?" Por coincidência,
Dr. Guedes chegou nesse dia, tarde. Já, então, Maneco, com a natural pusilanimidade
de marido, solidarizava-se com o resto da família. Grave e cínico, concordava
em que o Bezerra batera "todos os recordes mundiais de canalhice". Pois bem.
Chega o Dr. Guedes com o seu inevitável guarda-chuva de cabo de prata. Vê, por
toda a casa, fisionomias espavoridas. A filha mais velha chora. Por fim, o velho
pergunta, desabotoando o colete:
— Que cara de enterro é essa?...
calamidade
Então, a mulher o arrastou para o gabinete. Conta-lhe o ocorrido; concluiu:
"Eu admito que um marido possa ter lá suas fraquezas. Mas com a irmã da mulher,
não! Nunca!" Repetia: "Com a irmã da mulher é muito desaforo!" O velho ergueuse,
fremente: "Cadê esse patife"Trincava as sílabas nos dentes: "Cachorro!" No seu
desvario, procurava alguma coisa nos bolsos, nas gavetas próximas:
— Dou-lhe um tiro na boca!
E a mulher, chorando, só dizia: "Foi escolher justamente a caçula, uma menina,
quase criança, meu Deus do Céu!" Mas já o velho abria a porta e irrompia na
sala, dando patadas no assoalho: "Tragam esse canalha!" Houve um silêncio atônito.
Flávia cutucou o marido: "Vai, meu filho, vai!" Arremessou-se Maneco. Foi
encontrar o outro no fundo da garagem, de cócoras, como um bicho. Bateu-lhe,
cordialmente, no ombro: "O homem te chama." Foi avisando: "O negócio está preto.
Ele quer dar tiros, o diabo a quatro!" Bezerra estacou, exultante: "Se ele me der
um tiro, é até um favor que me faz. Ótimo!" Numa súbita necessidade de confidencia,
apertou o braço de Maneco: "Eu sei que Sandra é uma vigarista, mas se, neste
momento, ela me desse outra bola, eu ia, te juro, com casca e tudo!..."
a humilhaçãoNa sala, foi uma cena dantesca. O sogro o segurava, com as duas mãos, pela
gola do paletó: "Então, seu canalha? Está pensando que isso aqui é o quê? Casa da
mãe Joana?" Houve um momento em que o desgraçado, soluçando, caiu de joelhos
aos pés do velho. As mulheres paravam de respirar, vendo aquele homem receber
pontapés como uma bola de futebol. Rosnavam-se, profusamente, as palavras "monstro",
"tarado", etc, etc. Só uma estava quieta, impassível. Era Sandra, a caçula.
Com um palito de fósforo limpava as unhas, muito entretida. De repente achou que
era demais. Ergueu-se, foi até a porta do gabinete e, de lá, chamou: "Quer vir, aqui,
um instante, pai?" E insistiu: "Quer?" Justamente, Dr. Guedes escorraçava o genro:
"Rua! Rua!" Mas a caçula, sem mais contemplações, agarrou-o pelo braço, numa
energia tão inesperada e viril, que ele se deixou dominar. Entraram no gabinete e a
própria Sandra fechou a porta. Estava, agora, diante do espantado Dr. Guedes. Foi
sumária:
— Papai, eu sei que o Senhor tem uma Fulana assim assim que mora no
Grajaú. Percebeu? E das duas, uma: ou o Senhor conserta essa situação ou eu faço a
sua caveira, aqui dentro!... — Olhou para essa filha, que assim o ameaçava, como se
fosse uma desconhecida. Ela concluía: — Bezerra não vai deixar a casa coisa nenhuma.
Eu não quero!... — O velho reapareceu, cinco minutos depois, já recuperado.
Pigarreou:
— Vamos pôr uma pedra em cima disso, que é mais negócio. O que passou,
passou. Está na hora de dormir, pessoal.
Então, um a um, os casais foram passando. Por último, Bezerra e a mulher.
Ao pôr o pé no primeiro degrau, Bezerra dardejou para Sandra um brevíssimo olhar.
E só. A caçula retribuiu, piscando o olho. Cinco minutos depois, estava o velho,
grudado ao rádio, ouvindo o jornal falado das 11 horas.


Nelson Rodrigues

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