segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lugar comum

Cada macaco está no seu galho e todos, todos olham o próprio rabo e deixam o rabo do vizinho. A chuva chove no molhado, o sol brilha para todos... Chuva e sol? Casamento de espanhol! Passam índios ― ou serão hindus? ― em fila indiana. Vacas vão para o brejo.
Caçadores, num mato sem cachorro, caçam com gatos, e todos os gatos são pardos no
escuro. Rios correm para o mar. Paus nascem tortos, e assim permanecem. Semeadores de
vento colhem tempestades enquanto, ao fundo, um grupo separa o joio do trigo e outro faz das tripas coração e um terceiro constrói castelos no ar e... Súbito, tudo pára no lugarcomum.
Os índios, as vacas, os caçadores, até os rios. A paisagem fica estática, as frases
ficam suspensas. Só os mercadores fingem que não ouvem o silêncio ameaçador, mas em
seguida também param, e esperam. Algo vai acontecer. Algo ― ou alguém ― vai chegar. E
então ele aparece. É Gerúndio! O imperativo Gerúndio. Ele caminha pelo lugar-comum, as
mãos entrelaçadas atrás como um inspetor. Examina as frases paradas e chuta alguns verbos como se fossem pneus. Depois, dá a ordem:
― Circulando!
E vê tudo recomeçando à sua volta. Cada macaco sentando no seu galho e olhando
o próprio rabo em vez do rabo do vizinho. A chuva chovendo, o sol brilhando, a fila indiana passando, as vacas indo para o brejo, os caçadores caçando com gatos, os rios correndo para o mar... O mundo sendo ordeiro e previsível, como tem que ser.
Não sei se eu concordo com essa onda de cassar congressistas como o Jader
Barbalho. Enquanto eles estiverem no Congresso não estão nos assaltando na rua.
Sei que você não gosta do assunto isso de virar defunto ou, mais apropriadamente,
presunto. Mas ninguém escapa da sina de ter muita proteína e morrer, assim, "al punto". A
biologia, meu caro, não erra: estamos todos na cadeia alimentícia da terra.
Se você ainda não entendeu, é assim. O governo americano não pode garantir que
os investidores americanos não vão perder dinheiro no Brasil e em outros países exóticos.
Isso seria contra as leis do livre mercado, pois afinal capitalismo é risco, é jogo, e quem
emprestou dinheiro ao Brasil mesmo conhecendo sua reputação deveria saber que estava
fazendo uma aposta. Ao mesmo tempo, os investidores não podem perder seu dinheiro, pois isso os levaria a se desiludirem com o capitalismo e não quererem mais jogar. Assim o
Tesouro americano manda chamar o FMI, que vem pela escada de serviço, e ordena que ele empreste o dinheiro para o Brasil pagar seus credores. Mas, dirá você, sempre ingênuo, isso quer dizer que o FMI está pagando os credores, só usando o Brasil assim como um entregador. O Brasil é o motoboy na história! Não é bem isso. Controle-se. É muito mais sofisticado. Um motoboy ganha pelo seu serviço, e só o que o Brasil ganha é mais dívidas, pois não recebe nem uma gorjeta pela entrega e ainda fica devendo ao FMI.
Mas, dirá você, já apoplético, não seria mais simples o Tesouro americano chamar o
FMI e os credores e ficar assistindo, com um sorriso paternal, enquanto um desse o dinheiro diretamente para os outros, sem nos envolver e nos poupar pelo menos o vexame? Você,
decididamente, não entende de economia de mercado. Isso seria subvencionismo. Seria
quase, meu Deus, um Proer internacional, um escândalo. O dinheiro tem que passar pelo
Brasil antes de ir para os credores para manter as aparências. O papel do Brasil, enfim, é
ajudar a mostrar que em Washington se pratica um capitalismo sério. Que Washington não
é, assim, um Brasil.
Dizem que no futuro as pessoas se conhecerão e se casarão pela Internet, mandarão
suas células para um laboratório para fazer filhos que nunca verão e jamais precisarão estar juntos ― finalmente o casamento perfeito. E, se algo der errado, nem para o divórcio precisarão se encontrar. Basta usar o "Delete".
Meu teclado prevê tudo frases com asterisco e cifrão hifen, trema, exclamação!
Até, se a ousadia for grande, ponto e vírgula e ampersand.
Espero que nunca me falt nem o Ctrl nem o Alt e que nenhuma mão boba me leve a
arroba.
Só não quis saber ainda ― talvez prevendo um choque ― que diabo é esse tal de
"Num Lock".


Luis Fernando Veríssimo

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