segunda-feira, 24 de março de 2014

As preocupações do mês de março

Não vou repetir a respeito de março essas notas com ares de erudição, colhidas na mais vulgar das enciclopédias.
Quero falar-vos do março sisudo, respeitoso e austero.
Reparem só. O ano inicia-se com festas, cantatas, bailes e presentes.
Há no ar um mundo de esperanças. Mas, como a esperança é a última que morre, fica-se na expectativa; quem espera sempre alcança e se nada consegue, desespera.
Para meados de janeiro, a tradição marcou o aniversário da cidade coincidindo (sic) com a festa do padroeiro.
Luminárias, procissão, cantos sacros ainda ecoam na alma carioca, que desperta aos primeiros roncos de cuícas, ao som das pandeiradas dos morros anunciando o período pré-carnavalesco.
Todas as tentativas, projetos ou promessas ficam no ar, ficam pra depois do carnaval.
Fevereiro, o colorido e garrido anãozinho, o verdadeiro bobo da corte do ano, cheio de guizos, folião, conduz rei Momo, o ditador do carnaval. E assim se passa o pequenino fevereiro, perfumado a rodo, enfeitado de confete e emaranhado de serpentinas. É um mês sem responsabilidade.
Às vezes calha de, por excesso de complacência, ter março de aceitar nos seus primeiros dias, a incumbência de aturar o carnaval. Mas, geralmente, o sisudo março inicia sua trajetória anual em plena quaresma com abstinência e sacrifícios. Com rezas e penitência. Isso na igreja.
Entre o povo impenitente, há pecadores que confessam irreverentes:
Nas semanas da quaresma
Com um quarto de bode
A Deus eu peço perdão
Cada um faz o que pode

Esses são os que não desejam indulgências, são os "boa boca", tudo serve.
Mas a maior responsabilidade do mês reflete-se nos estudantes.
É o mês da abertura das aulas, quando crianças e adolescente vêem surgir o espantalho das lições, das sabatinas, dos zeros e dos castigos.
O enxame alegre dos estudantes povoa as ruas, toma de assalto os transportes, invade a escola, com risos e comentários, enche de alegria e vida as salas de classe.
São roupinhas novas, são carinhas alegres, são uniformes impecáveis, livros, cadernos, bolsas, tudo com aspecto de novidade.
Nos bancos primários, nos ginásios, nas faculdades, há sempre, assustados e tímidos calouros, grupos de alunos recém-matriculados, desambientados do regulamento da nova casa de ensino, como se veteranos senhores da casa; há os vadios, displicentes, os estudiosos, preocupados, os saudosistas dos dias alegres e animados das férias.
A alma ingênua das crianças e o espírito vivo dos adolescentes vêem março com uma certa prevenção, como um súbito temor. Esse mês, se fosse materializado, encarnaria um professor de óculos, severo, rigoroso, ou uma dessas mestras secas, enfezadas, que não dão uma folga.
É que para eles, estudantes:
Mês de março é o mês das aulas
Mês de preocupação
Já lá se foram as férias
Voltemos todos às lições

Mas, decepções, anseios, prêmios e glórias, tudo isso passa tão rápido, passa tão ligeiro como a infância, deixando-nos saudades tão doces e sinceras que jamais se apagam na nossa memória.
Parodiando, diríamos:
A vida do estudante
É curta e dura pouco

Março é o mês de despedida do verão, dos dias claros, brilhantes e ardentes. A 20 de março, o sol atravessa o Equador, determinando para o nosso hemisfério o equinócio do outono ou a entrada dessa estação temperada, a estação das frutas.
Responsável por esse movimento astronômico de austera responsabilidade, pois só duas vezes se passa no ano — março e setembro — há um outro acontecimento memorável para o mundo cristão: o dia de São Gabriel, o anjo da santa missão de Deus a uma simples mulher de Nazaré — Maria.
Desse:
O bondoso Gabriel
Aparecendo a Maria
Anunciou-lhe Jesus
Nosso redentor seria

E São José, o complacente e bondoso esposo de Maria, comemora o seu dia a 19.
É o protetor dos casamentos felizes, é a ajuda dos agonizantes, o bençoador da boa morte.
Mas a 25 de março é a data maior da Cristandade: é o dia da Anunciação de Nossa Senhora.
O povo refletiu toda a grandeza dessa missão divina confiada a Maria de Nazaré, numa linda trova de uma simplicidade tocante, de uma beleza ímpar:
No ventre da Virgem Maria
Encarnou Divina Graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça

E assim termina o austero mês de março, o mês de grandes datas e de tantas responsabilidades para a humanidade.

(Lira, Mariza. "As preocupações do mês de março". Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 6 de março de 1955)

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