quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Contos de Verão II

1. CÓDIGOS
Dona Paulina ensinou à sua filha Rosário que cada ponto do rosto onde se colocasse uma pinta tinha seu significado. Na face, sobre o lábio, num canto da boca, no queixo, na testa... A pinta, bem interpretada, mostrava quem era a moça, e o que ela queria, e o que esperava de um pretendente. O homem que se aproximasse de uma moça com uma pinta ― numa recepção na corte ou numa casa de chá ― já sabia muito sobre ela, antes mesmo de abordá-la, só pela localização da pinta. A três metros de distância, o homem já sabia o que o esperava. A pinta era um código, um aviso ― ou um desafio.
Anos depois dona Rosário ensinou à sua neta Margarida que a maneira de usar um leque dizia tudo sobre uma mulher. Como segurá-lo, como abri-lo, sua posição em relação ao rosto ou ao colo, como abaná-lo, com que velocidade, com que olhar... Só pelos movimentos do leque uma mulher desfraldava sua biografia, sua personalidade e até seus segredos num salão, e quem a tirasse para dançar já sabia quais eram as suas perspectivas, e
os seus riscos, e o seu futuro.
Muitos anos depois a Bel explicou para a sua bisavó Margarida que a fatia de pizza impressa na sua camiseta com "Me come" escrito em cima não queria dizer nada, mas que algumas das suas amigas usavam a camiseta sem a fatia de pizza.
2. CASA NA PRAIA
― Você bateu quando eu estava com a mão cheia, Osni.
― Tá bom. Bati.
― Você sempre faz isso, Osni.
― Sempre não. Eu...
― Sempre, Osni. Eu não agüento mais, Osni.
― Tá bom, tá bom. É apenas buraco.
― Não é apenas buraco, Osni. É tudo. É a nossa vida. O buraco é só, só...
Como é que se diz?
― Exato. É só um jogo de cartas.
― Não é só um jogo de cartas, Osni!. É um símbolo. Tá entendendo?
― Ai meu saco... Epa!
― Sabe por que eu não te mato agora, Osni?
― Larga a faca.
― Sabe por quê?
― Larga essa faca.
― Porque se você morrer eu vou ter que jogar com a Ceres, que é pior que você. A Ceres não abre jogo. A Ceres fica com os jogos feitos na mão! Ela é mais débil mental que você!
― Ela é sua irmã, e ela está ouvindo.
― É uma débil mental! Você é um débil mental! Eu sou uma débil mental, por ter me casado com você!
― Larga a faca.
― A vida é uma parceria, Osni. Não se bate quando o outro acaba de comprar o morto. Entende? Essa é uma regra da vida. É uma das regras básicas da vida, Osni.
― Pronto, pronto. Me dá a faca. Isso. Pronto.
― Não se bate quando o parceiro está com a mão cheia, Osni!
― Está certo. Prometo não fazer mais. Agora calma.
― Eu estou rodeada de débeis mentais!
― Calma. Vou buscar seu comprimido.
― E essa merda de televisão que não pega nada, também!
3. CHEGADA
O Marcos já tinha telefonado para os pais, na praia, e avisado que não dera.
Não dera de novo. Era a quarta vez que fazia o vestibular, mas ainda não fora desta vez. Pegou uma carona para a praia e na chegada foi vendo as faixas na frente das casas de veraneio. "Alice ― Psicologia", Valeu, "Marcelão! Agronomia", "Bebeto, Engenharia", "Ieda, Oceanografia" ― as famílias recebendo seus heróis do vestibular para um descanso merecido.
Pô, pensou. Todo ano é assim. Pra me massacrá. E então viu que na frente da sua casa também tinham estendido uma faixa. Dizia "Marcos, Simpatia". Desceu do carro emocionado. Aquilo era coisa da velha. Só podia ser coisa da velha.
Correu para dentro da casa, pensando: ainda dá pra pegar umas ondas e, de noite, aquele churra pra comemorar minha chegada!
É preciso explicar que o apelido da mãe dele para o Marcos é "Lindinho".
4. SSSSSSSSSSS
"Sssssssssônia..." Era uma brincadeira deles. Desde a primeira vez em que ouvira o seu nome ele a chamava assim.
"Sssssssssônia..." E ela respondia: "Ssssssssim?" E ele: "Ssssssensacional."
Viam-se pouco. Cruzavam-se no clube, só isso. Uma vez ela tentara se informar a seu respeito e ouvira que era um solteirão, com talvez o dobro da sua idade. Diziam que era impotente, um acidente na mocidade, ninguém sabia muito bem. Tinha dinheiro, não fazia nada. Vivia no clube, fumando seu cachimbo. Usava uma echarpe de seda no pescoço, para dentro da camisa, inverno ou verão. Não parecia dar muita atenção a ninguém, mas, por
alguma razão, a distinguira com aquela brincadeira. Quando a via sempre dizia "Ssssssssônia." E ela: "Ssssssssim?" E ele: "Ssssssensacional." Na única vez em que tiveram uma conversa mais demorada, ele contou que uma cigana lera sua mão e dissera que ele morreria com 72 anos. Depois olhou o relógio, suspirou e disse.
― Ainda falta tanto tempo...
Depois sorriu para ela e disse:
― Ssssssssônia...
― Ssssssssim?
― Sssssssssensacional.
5. O CÚMULO
Dalton chegou ao cúmulo. Levou o celular para dentro d'água, quando entrou no mar. A mulher atrás, gritando: "Desliga, Dalton!" e o Dalton com a mão no alto, para o celular não molhar.
6. AMADURECIMENTO
Rosildo e Múcio cresceram juntos, se formaram juntos, casaram no mesmo dia com irmãs e foram morar juntos. Claro, deu confusão. Depois da briga entre os casais, Rosildo e Múcio ficaram uns dez anos sem se falar.
Reencontraram-se, reconciliaram-se e abriram uma firma juntos. Nova briga, desta vez por causa de dinheiro, mais cinco anos de separação. Um dia, por acaso, se cruzaram em Veneza, os dois já divorciados, e quando viram estavam tendo um romance homossexual, mãos dadas na gôndola e tudo. Na volta ao Brasil brigaram feio, ciúmes, mais 20 anos sem se ver. Há alguns anos se encontraram na praia, os dois aposentados, com mulheres e netos.
Acabaram formando uma dupla de vôlei. Já são tri-campeões da categoria sêniors.
Nunca brigam, jogam com um entendimento perfeito, descobriram sua vocação.
Mas os dois dizem que uma dupla de vôlei perfeita não se forma, assim, da noite para o dia. Muita coisa tem que acontecer antes para uma dupla de vôlei atingir a perfeição.
É um longo processo de amadurecimento, diz o Rosildo, e o Múcio concorda.


Luis Fernando Verissimo

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