quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O fim de um caguete


Bateu sujeira na sombra de Alvinho e toda a cana saiu na sua captura. Sem outro jeito, de teve que se arrancar do seu pedaço. Foi se mocozar nas encolhas de um parceiro de fé, o Vado, ponta-firme. E era daí que, de noite, se mandava pra estarrar os loques e defender seu lado, porque a situação estava encardida e no dava pé deixar tudo por conta do companheirinho. 

Com essas e outras, podia levar a barca até pegar estia e a sua barra ficar mais leve. Acontece, porém, que o cupim andava roendo o peito e a caixa de catarro, falhando. Vontade de tuberculoso é broca.  E o Alvinho queria. Como queria! Dia e noite, só tinha vontade da Madalena, uma cabrocha de alta linha, que não deu pra ele carregar na hora do pinote. No que fez mal. Ela, longe, era carga mais pesada. Durante as horas em que ficava enfurnado, sem poder botar a fuça na rua, só pensava nela. Por mais que se esforçasse, não tirava a mina da cuca. Era uma zorra. Um troço de abilolar.

Numa noite, depois de arroxar uma farmácia, de onde, além da grana, afanou umas bolinhas, se chapou e não se aguentou. Anunciou pro Vado:

— Meu bom, num podendo comigo. Vou ver a Madalena.

O cupincha. que estava por dentro das quizilas, se espantou e quis cortar a onda:

— Guenta aí! Tu vai dar sopa pro azar por quê? Os homens sabem da tua gamação na Madalena. Eles tão só aí na campana. De botucas ligadas no barraco dela. Se tu pia lá, eles te ganham fácil.

Pro Alvinho, aquele papo era do cacete. Sabia que tudo que o Vado falou era positivo. Mas, estava encabreirado. Ardido por dentro. Andou de bobeira de um canto pra outro do mocó. Botou tudo na balança. Ficar enrustido ali era o mesmo que estar na cela. E a Madalena era sua gama de pedra. Valia o risco. Cismou e selou:

— Vou, sim.

Afirmou com a força de quem sabe querer. O parceiro sentiu o lance. Só chiou por Chiar:

— Se tu quer mulher, eu dou uma banda por aí e trago duas pistoleiras pra gente. Não precisa tu ficar dando carga à toa.

Esse pla até atucanou o vagau, que estrilou:

— Que mulher. poxa? Eu só quero é a Madalena! E tchau mesmo.

Botou o pé no rnundaréu e deixou o Vado falando sozinho. Atracou na Favela do Buraco da Lacraia de madrugada. Estava tudo em silêncio. O Alvinho espiou os caminhos e se tocou que estavam todos livres. Nem um tira, nem um cachorrinho estava de plantão. Avançou se esgueirando entre os barracos.

Não leve escama. Chegou fácil à moradia da Madalena. Bateu de leve, que não estiva a fim de escarcéu. Nesse momento, um vulto apareceu no fundo do beco. O Alvinho se ouriçou. Mediu a distância e viu que, se a figura fosse da lei, não tinha escapatória. Não dava pra correr. O jeito era encarar. Levou a mão na arma. Mas, teve um breque. O vulto que vinha se aproximando manjou o movimento e o reconheceu. Maneirou:

— Que é que há, Alvinho? Vai me estranhar?

O alô relaxou o salseiro. Pro Alvinho, foi o alívio. Neste instante, a Madalena abriu a janela, se assustou de ver ele ali. Fez dengo antes de abrir a porta. E o Alvinho não quis saber direito quem tinha cruzado com ele. Se era chapa ao ponto de reconhecê-lo no escuro, estava legal. O resto era só com a Madalena. E não deu outra coisa. Matou a saudade.

Os primeiros raios de sol iluminavam a favela, quando a gronga se deu. No meio do seu sono satisfeito, o Alvinho foi despertado por um berro:

— É cana, Alvinho! Tu tá cercado. Se sair legal, ninguém vai te esculachar. Se aprontar, a gente te dança. Tu tem um tempo pra escolher.

Foi broca. A Madalena se botou a rezar. O Alvinho estava feliz. Todo satisfeito, Depois de tanto amor, não queria guerra. Queria paz pra poder ter sempre a sua Madalena. E estava disposto a pagar por tudo. Virou pra mina e pediu:

— Tu vai me ver? Tu me espera?

Ela olhou nos olhos dele e estava jurado. Não precisa palavra entre os amantes que se amam. E então o Alvinho iniciou o trato:

— Quem tá aí no mando?

Um tira jovem, meio afobado, doido pra mostrar valentia, era o mais próximo e foi quem engrenou o papo:

— É o Doutor Diogo.

O Doutor Diogo era manjado pelos bandidos. Não era bronqueado. Só cumpria seu papel. Não dava pancada à toa, nem desmoralizava valente nenhum. Prendia do jeito que desse. Quem se rendia pra ele, não penava. Aquilo era bom pro Alvinho Ele avisou:

— Tá legal! Vou sair.

Porém, aí, uma idéia de jerico lhe bateu na cachola. Jogou verde:

— Vou sair manso. Só que tem um negócio. Quero saber quem me dedou.

Deu certo. O tira jovem deu mancada.

Sem pensar, deu a ficha.

— Foi o Tisiu.

Como resposta, o Alvinho jogou a arma pela janela. Ainda escutou o Doutor Diogo bronquear:

—Tá falando muito. Quem te mandou cantar a bola?

Mas, isso não interessava pro Alvinho. Ele beijou a Madalena. E, já saindo disse:

— O Tisiu é que me viu entrar aqui. Deixa ele.

Sem mais assunto, o Alvinho se largou na mão dos tiras. Eles, sem perder tempo, meteram as argolas no bandido e o levaram pelos becos da favela, rumo ao carro que estava parado em frente a uma padaria. E na porta da padaria, assim como quem não quer nada, o Tisiu sapeava o lance. O Alvinho tirou ele na pinta. O crioulo desviou o olhar. Mas, teve que escutar uma promessa:

— Tá legal, Tisiu. Tá legal. Agora, tu se lembra que tem sempre um dia atrás do outro.

Nas quebradas do mundaréu, até as pedras se encontram. E quem não tem roda larga, acaba sempre comendo capim pela raiz. Um dia, o Tisiu se estrepou. Estava devendo pros homens e entrou em pua. Fez uma mixórdia. Chorou, implorou, pediu pelo amor de Deus pra não meterem ele no mesmo pavilhão que o Alvinho. Conseguiu. Mas, logo o outro soube da entrada do cagüete e daí pra frente perdeu o sossego. Passava o tempo todo tramando um jeito de apanhar o Tisiu. Até que veio a vez.

Os bonzões do presídio armaram uma treta cavernosa. Rebuliço geral pra, no meio da confusa, ganharem fuga. O Alvinho topou de primeira. E a catimba se deu. Rolo grosso. A curriola toda querendo ganhar a rua. Só o Alvinho não queria se mandar. Seu acerto era com o Tisiu. Foi pra decisão. Varou grade, parede, bala e tal e coisa. Passou pro pavilhão em que estava o cagüete. Deu congesta no carcereiro, pegou as chaves e invadiu a cela do Tisiu. Se plantou na frente do rato e puxou uma navalha. O crioulo se jogou de joelhos e implorou:

— Tem pena de mim. Alvinho. Eu não te sacaneei por gosto. Os homens me apertaram. Te juro por essa luz que me ilumina.

Foi a última vez que o Tisiu falou na desgraçada da vida. Hoje, quem for à Favela do Buraco da Lacraia e passar perto das malocas vai ver, parado na porta de uma padaria, esmolando, a triste figura de um crioulo sem língua. 
 
  
Plínio Marcos

* Texto originalmente publicado na coluna “Janela Santista”, na edição de 24/10/1999, do Jornal da Orla. 

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