domingo, 24 de novembro de 2013

Contos de Verão

A mulher voltou para casa mais cedo do que o previsto e encontrou o marido só de cuecas, segurando uma motosserra, enquanto na cozinha uma loira vestida apenas com um dólmã do Exército russo fritava pastéis e no sofá da sala um baixinho de barba ruiva, também nu, brigava por um acordeão com um animal que podia ou não ser um urso de calcinha, sutiã e chapéu de bombeiro na cabeça e no chão, aparentemente morto, estava um homem com toda a indumentária do corpo de bombeiros, menos o chapéu.
― O que é isso?! ― gritou a mulher.
Depois de um instante de choque e silêncio, o homem suspirou, deixou-se cair numa poltrona e disse:
― É uma história comprida...
Pronomes Antes de apresentar o Carlinhos para a turma, Carolina pediu:
― Me faz um favor?
― O quê?
― Você não vai ficar chateado?
― O que é?
― Não fala tão certo.
― Como assim?
― Você fala certo demais. Fica meio esquisito.
― Por quê?
― É que a turma repara. Sei lá, parece...
― Soberba?
― Olha aí, "soberba". Se você falar "soberba" ninguém vai saber o que é. Não fala "soberba". Nem "todavia". Nem "outrossim". E cuidado com os pronomes.
― Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?
― Está vendo? Usar eles. Usar eles!
O Carlinhos ficou tão chateado que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:
― Ó Carol, teu namorado é mudo?
Ele ia dizer "Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado", mas se conteve a tempo.
Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina agradeceu, com aquela voz que ele gostava.
― Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.
Aquela voz de cobertura de caramelo.
Esquerda X Direita Meio de brincadeira, decidiram que o futebol na praia seria
entre esquerda e direita. Brota, o mais indiscutivelmente PT do grupo, escolheria um lado, Renê, reacionário assumido, o outro. No terceiro escolhido do René já deu problema. O Martins apontou para o próprio peito e disse:
― Eu?
― Você ― confirmou Renê.
― E desde quando eu jogo no teu time, Renê?
― Vai dizer, agora, que é de esquerda?
― Toda a vida.
― Ó Martins? Eu te conheço do tempo da faculdade.
― Pois então? Se você me conhece sabe qual é a minha posição.
― Sei. Quero você pra jogar na direita.
― No seu time eu não jogo.
Ficou um clima ruim e o Renê decidiu escolher outro.
Apontou para o Melchiades, que também se rebelou.
― Essa não, Renê!
― Que foi?
― Eu de direita?
― E não é? Eu ainda me lembro de você...
Mas o Melchíades estava com as mãos espalmadas na frente do peito, pedindo para ele parar.
― Não me vem com passado, não me vem com passado.
― Você pode jogar na meia-esquerda.
― No time da direita eu não jogo.
René perdeu a paciência.
― Será possível que ninguém é de direita neste país?
― Eu sou ― disse o Alemão, que se chamava Bruno Almiro.
René suspirou. Sabia que o Alemão tinha até retrato do Hitler em casa. Mas o Alemão era muito ruim de bola. O Alemão, apesar de baixinho, só sabia dar pau.
― Desisto ― disse o Renê.
Voltaram para o casados x solteiros, depois que os casados aceitaram que o gordo Paixão fosse para a zaga dos solteiros, já que o que havia entre ele e a Vanusa não podia mais ser chamado de casamento.
Infelizes ― Como vocês me acharam?
― Perguntamos quem era o homem mais infeliz da cidade. Você ganhou.
― E eu pensava que estava disfarçando bem...
― Só quem não votou em você foi um bêbado no boteco. Disse que o mais infeliz era ele. Mas você era o segundo.
― O Argeu. Sei quem é. Conversamos muito.
― Você tem mala?
― Não, não. E, mesmo, pra que mala na prisão?
― Então, vamos?
― Vamos.
― Só me diz uma coisa...
― O quê?
― Que foi que ela lhe fez, pra merecer morrer daquele jeito?
― Infeliz. Me fez infeliz.
E depois:
― Mais infeliz do que com ela, só sem ela.
― Mulheres...
― É o que o Argeu diz sempre


Luis Fernando Verissimo

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